sábado, 10 de novembro de 2012

A CARTA

raffael petter
 
Termino de ler a carta. Solto um risinho abafado. Procuro o emissário dela. Quem seria?Observo todas aquelas caras. Não, não consigo encontrá-lo. Era uma missão impraticável, pois os rostos de meus companheiros de classe estavam impassíveis, atentos a aula modorrenta de história.
O jeito era chamar por Vivian, minha melhor amiga:
--Ei, Vivian!—digo quase berrando.
Contudo, não me ouve. A pobre estava surda. A culpa obviamente era de seus fones de ouvidos que ia lá às alturas, lhe bloqueando a audição.
Respiro fundo como se estivesse numa aula de mergulho.
Há casos em que só são solucionados através de atitudes altamente extremas.
-- AIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!!!!!!!!!!!!!!!—anuncia a recém-beliscada. Fazendo com que a sala toda vertesse seus olhares para ela. Pouco tempo depois, viera o professor de história atraído pela distração da sala. Pergunta:
--Algum problema, Vivian Moraes Pinto?
-- Não... Nenhum. —responde ela, olhando-me feito um pimentão em fúria.
--Então se assim. Diga-me o autor da seguinte frase:
         “É na mudança que as coisas assentam.”
A pobrezita de minha amiga fica olhando timidamente pra suas unhas esmaltadas com uma provável vontade de roê-las. E eis sua resposta:
-- Não sei...
Ao receber tal resposta o mestre vai ao quadro negro (na verdade era verde) e escreve numa letra garrafal: HERÁCLITO.
--Desculpe. Não foi por querer—digo falsamente. Foi por querer sim. Ninguém mandou ficar ouvindo música no último dos últimos volumes. O bom de uma amiga Vivian é que ela perdoa as coisas facilmente.
-- O que você queria?- pergunta ela. Entrego-lhe a carta. Lê-a e me sorri.
--Quem você acha que é?
-- Bom, eis as opções: a)Dudu, b)Luiz Olavo ou c) Felipe? Eu aposto no Luiz Olavo ele é apaixonadíssimo por você...
Viro-me pra trás e olho. Não. Ele fazia o tipo intelectual, o gênero cientista.
-- Descarto—respondo a sugestão de minha amiga.
-- Então que tal o Dudu? Ele também era super afim de você lembra-se?
Viro minha cabeça pro lado direito, encontro Dudu na última carteira onde estava sentado. Impossível. Não fazia o meu tipo. Por quê?Ah. Porque ele era gótico e não gostaria de um namorado, com qual teria que dividisse o meu estojo de maquilagem.
-- Descarto três vezes. Impossível, impossível e impossível mesmo!—começamos a rir feito duas tontas.
--Então só nos resta... O FELIPE!!—grita minha colega novamente, pra sala inteira. O que faz nós voltarmos àquele estado vexatório que, nos adolescentes,sempre entramos quando somo observados.
E o pior de tudo nem era isso. Era o sorriso de Felipe em nossa direção. O professor de história se aproxima. Ia-nos perguntar algo. Oh God!Estava ferrada!
Contudo, o maravilhoso sinal pra saída soa! Uhu!
E eu e Vivian, tão logo arrumamos nossas bolsas como verdadeiras escoteiras e saímos à cata de Felipe. Tinha de descobrir se era ele ou não.
                                       ***
Encontramos com o suspeito num ponto de ônibus. Aproximamo-nos dele e pergunto sem rodeios.
-- Felipe esta carta e sua?
Ele pega da carta e a lê. E me responde o seguinte:
--Não escrevo estas cartas ridículas de amor... Muito menos a você.
Congelo. O chão debaixo de meus pés parece que afundara. Meu rosto enrubescera, parecendo ter levado cem mil bofetadas na cara. Era, em suma, como se um rolo compressor houvesse passado por cima de mim. Eu e minha melhor amiga saímos de perto desse estúpido. Estávamos arrasadas eu mais do que Vivian óbvio.
Se não fora ele, nem o Dudu ou muito menos o Luiz Olavo, então que fora?
A resposta nos veio logo que assentamos num banco de praça ali perto.
-- Olá, garotas... É Suellen, você pegou algo que é meu...
Levanto minha cabeça pra ver quem era. Fico sem ar. Não conseguia acreditar no que meus olhos viam. Tom o cara mais gato da escola e da minha sala, falava comigo. Como não havia pensado logo nisso! Então fora ele... Desde o começo era ele...
-- Ah, sim... Agora entendo... Então foi você— mal consigo terminar de falar, pois ele me interrompe com aquela voz de barítono.
--A carta não era pra você e sim pra Jennifer... Foi mal—diz me pondo a mão na cabeça.
Pela segunda vez consecutiva, meu mundo desaba. O tempo todo a carta era pra loira estonteante, que sentava na carteira a minha frente!
Devolvo a carta pro dono e saio puxando Vivian pelo pulso. Pegamos o primeiro ônibus que vimos.
Nunca mais abriria outra carta.
 
Gostaram?

9 comentários:

  1. O blog mudou tanto! E eu tenho a minha leitura toda atrasada. Mas li a "A Carta" e gostei muita (: E tem um dos meus nomes favoritos: Vivian !!!
    Kissus

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    1. Brugado Nídia!Acho que ele estva precisando mesmo de recalchutadada! Que bom que você gostou brigado!

      Abraços!

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  2. Gostei, conto perfeito, mas exijo uma continuação em que esses babacas se interessem por ela e ela arranje coisa melhor, tadinha, que otários u.u
    Amei o blog e adorei o conto, tá ótimo *_* Já estou seguindo, se puder seguir de volta eu agradeço muito ^^

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  3. Ficou muito legal! Please, segue meu blog? já sigo o seu :)
    www.nyquetargino.blogspot.com

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    1. Brigado meninas , por seguir o blog! Pó deixar que seguirei os seus também.

      Abraços.

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  4. hahaha
    pior meu, essas coisas de carta, embora tentadoras, dão o maiiior trabalho!
    Curti o novo template! Parabéns e desuclpe a demora em vir lhe visitar, é que ando meia tontona pra lá e pra cá terminando algumas coisas.
    Grande beijo

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  5. Tadinha da menina... hehehehhehe
    Cara, ficou muito massa o novo layout do blog, bem do mal muahahhahah...
    Abraço!

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  6. Obrigado, Oz e Andressa super amigões!

    Abrços e bjos

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  7. Muito massa o conto! Estou seguindo já! Parabéns pelo blog! Vou abrir um blog de encomendas de layout, cabeçalhos etc. Que tal um para seu blog?
    Abraços!
    Vintage Mustache

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