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domingo, 23 de junho de 2013

CRÔNICAS DE UM VAMPIRO - 4

desenhos de eva
4. Olá, meu nome é Eva.
 
Na noite seguinte, cheguei ao pub e me deparei com um cheiro diferente.
Sei que isso é algo meio idiota a ser dito por um vampiro que trabalha num pub badalado, mas o cheiro era completamente diferente dos quais já pude experimentar nos anos que ali trabalhei.
Era um cheiro de flores, misturado com uma pitada de alguma essência marina. Ou seria melhor dizer que pela primeiríssima vez, não saberia dizer que cheiro era aquele.
Não sabia o que dizer, isto é, como classificá-lo.
O mais importante era que eu estava ali e iria desvendar a quem pertencia tal cheiro.
-Gaé, vem cá. —sussurrou Leonardo me chamando para perto dele, perto do balcão quão ele ficava recebendo as pessoas, anotando pedidos. —Você não vai acreditar!—disse exultante.
-O que foi?
-Eva.
-Oi?
-Eva. Nova. Funcionária. Aqui. Gostosa. —respondeu ele quando percebera a minha cara de questionamento.
-O que?
Leonardo iria me responder só que somos interrompidos, pois Eva acabava de aparecer.
-Oi garotos...
-Eva-va... Ah, esse daqui é o Gaé, digo, Gael, ele é um dos funcionários daqui— falou ele babando, não desgrudando um minuto sequer de Eva.
-Olá, Gael. Como vai?—cumprimentou ela, estendendo sua mão direita.
-Tudo bem...
Quando minha mão encostou-se na dela, algo surpreendente acontecera. Um arrepio cortou todo o meu corpo como se recebesse uma descarga elétrica. Olhei pra cara dela: cabelos longos negros e cacheados; rosto oval e pálido como o resto de seu corpo; olhos verdes marcados por delineador forte e uma boca em formato de coração sedutora marcada por batom vermelho...O mais impressionante era que aquele rosto não me era estranho...
-Tudo bem mesmo?—perguntou ela quebrando aquele estado de remember time em que me encontrava.
-Tudo. —disse largando a mão dela. Ela sorria abertamente e depois começou a rir.
-Vou lá papear com a “Ieta”—falou desmanchando em risos indo na direção cozinha.
- Gaé, você precisava ver a sua cara quando vocês se cumprimentaram... Parecia um bobo!
-É?
-Sim... —respondeu. —Ai!—gritou depois de eu ter-lhe desferido um soco.
***
-Gostou da garota nova?—perguntou Amanda.
-É...
-Vamos, cara, diga a verdade!Gostou ou não?
-Gostei, mas...
-Sei, ela pode parecer uma doida varrida uma porra louca e tudo o mais... —falava Amanda enquanto ia crestando os hambúrgueres na chapa.
-Você gostou dela?
-Sim. Se fosse “homo” ou “bis”, pegava ela sem pensar duas vezes.
-Sério?
-Sério.
 Começamos a rir.
Cessado os risos pergunto:
-Ela é o que da Marieta?
-Ela havia me dito que era sobrinha ou filha de uma prima dela, alguma coisa do gênero.
-E você sabe o que ela veio fazer aqui?
-Ela disse que ela veio para cá por algo muito importante e que estava morta de saudade de Marieta.
-Saudades da Marieta?—pergunto assustado.
-Para você ver em que situação o mundo se encontra. Para alguém ter saudade daquele demônio precisa-se ser um tanto desajustado, não acha?—disse fazendo movimentos circulares com o indicador próximo das têmporas.
-Sim, acho—disse caindo no riso.
 Passei o dia inteiro pensando na Eva. Aquele rosto não me era estranho...
CONTINUA
 
 

 

 

segunda-feira, 10 de junho de 2013

CRÔNICAS DE UM VAMPIRO - 3

cronicas de um vampiro
3. A Fugitiva
- O que você está fazendo aqui?—perguntei irritado, apesar de saber o que ele estava fazendo ali.
-Não está contente em me ver filho?—perguntou com um sorriso largo no rosto.
-Não – respondo.
Meu pai era o tipo de cara que apesar do tempo passar, gostava de aparecer com um garoto. Tinha cabelos pretos brilhosos, que já deviam estar esbranquiçados se não fosse pela sua condição de vampiro, queixo proeminente com um furinho neste, olhos azuis que, às vezes, quando estava com raiva se tornavam cinzas.
Em suma, era um quarentão que queria parecer jovem.
-Oi, Gael. —disse a nova mulher de meu pai que estava sentada ao lado dele que só fui percebê-la porque, me cumprimentara. —Meu nome é...
-Já sei qual o seu nome. Zaya, não é mesmo?
Ela anuiu à cabeça e Marieta cacarejou perto da mesa, ainda ciscando o chão escuro em busca de um milho imaginário.
Olhei pra ela e tive o breve, repito breve ímpeto de dizer ao meu para que quebrasse aquele transe, mas pensando melhor decidi deixá-la como uma galinha durante algum tempo mais.
-Então o que você quer?—pergunto categórico.
-Passar um mês hospedado em sua casa. —respondeu após suspirar.
-Por quê?
-É uma longa história...
-Amo longas histórias... —respondo impaciente.
- Mas agora não dá pra dizer... —disse indicando para Leonardo que estava atrás de mim.
Virei-me e constatei que meu querido colega de trabalho não estava nem um pouco a fim de escutar a nossa conversa.
Chorava de tanto rir. Quem o visse diria se tratar duma criança.
-Então, tá. Esperem até a gente fechar...
-Não. Acho que tenho uma ideia melhor. —falou levantando-se da mesa indo agachar-se perto de Marieta.
Olhou em seus olhos. Ela imediatamente parou de cacarejar, encarando-o.
Sabia muito bem o que ele ia fazer.
Eu e Zaya assistíamos ao show sem dizer uma palavra.
Quando Marieta estava presa no olhar de meu pai este disse:
-Você fechará, está lanchonete agora. Dispensará todos os seus funcionários.Você me entendeu?
-Sim. —respondera ela confirmando a resposta com um aceno afirmativo de cabeça.
Ela levantou-se abandonando toda aquela loucura de galinha e dirigiu-se a mim falando com uma voz pastosa como se um alien houvesse se apossado de seu cérebro.
-Você está dispensado.
Depois passou por mim e disse o mesmo a Leonardo. Eu sabia muito bem que aquilo se tratava de um transe uma espécie de hipnose que nós vampiros temos os poderes de impor. Mesmo contra a vontade do individuo. Vide o exemplo de Marieta.
- O que deu nela cara?—perguntou Leonardo não entendendo bulhufas o que acabara de acontecer.
-Eu que não vou ficar aqui para ver. —respondo. —Vocês podem me esperar lá fora?— peço a meu pai e a minha “madrasta.”
Eles atendem ao meu pedido.
Passo pela cozinha e vou direto ao pequeno cômodo que servia de escritório e deposito dos pertences dos funcionários.
Encontro com Amanda e Leonardo preparando-se para sair.
-O que deu nã chefe barra vaca, barra brava?
-Não sei não. —respondo. —Talvez um milagre?
Amanda olhou com o seu rosto redondo para mim, cética.
Depois abriu um sorriso.
-Não, não creio... Talvez o remedinho que ela toma venceu ou ela andou tomando uns goros escondida...
Nós três começamos a rir ao mesmo tempo.
***
Já fora do pub, procurei por eles, mas não os encontrei. Porque, provavelmente, deveriam estar esperando na minha casa.
Dou alguns passos na rua escura e quase vazia, para depois dar origem a uma feroz e desabalada corrida em direção as trevas.
***
Fui encontrá-los (mais Ferdinando) a porta de casa.
-E aí, mano não falei?
-Sim; falou—respondi empurrando a porta assim que a abri.
Fomos todos para o sótão.
-Pode começar—disse me sentando no sofá.
-Bem... —começou ele, tirando Ferdinando da poltrona para que pudesse se sentar. —Sei que não temos as melhores das relações como pai e filho...
-Tá eu também sei. Mas você não veio aqui só para falar isso. Vamos, conte logo a verdade!
-É que eu estou fugindo...
-Do que ou de quem?
-Da Paratsu.
-Do que?
-Da Paratsu. O clã de bruxas celtas.
-Mas por quê?—pergunto me acomodando melhor no sofá.
-Eu sou o motivo — começou Zaya antes que meu pai tivesse chances de explicar. —Foi por minha causa... Eu me apaixonei pelo seu pai e ele por mim...
-E qual o problema?Não vejo mal algum nisso.
-Sim— continuou ela. —Não há mal algum para nós, mas para Paratsu tem. É que quando uma bruxa entra para Paratsu, ela é obrigada a fazer o voto de nunca se interessar por um homem fora da seita. E quando conheci o seu pai e me apaixonei por ele, acabei quebrando o voto... —parou para olhar meu pai que também não desgrudava os olhos dela.
-E...?—interroguei.
-E que se uma bruxa quebra tal voto ela é imediatamente considerada como traidora e com isso esta deve ser morta o quanto antes. Não só ela, mas como todos com que ela se relacionar. Pois os segredos da seita não podem transpirar.
-Então, vocês vieram para cá em busca de guarida?
-Isso —disse Zaya.
-Só por uns tempos... — completou meu pai.
Não tive escolha.
-Tá, desde que eu não corra perigo...
-Não se preocupe juro que nada vai te acontecer. Palavra de pai— falou meu pai erguendo a mão direita como se estivesse fazendo um juramento.
Acenei a cabeça concordando falsamente, pois sabia que de uma maneira ou de outra, meu pai acabaria me pondo em encrencas.
 CONTINUA

 

 

quinta-feira, 23 de maio de 2013

CRÔNICAS DE UM VAMPIRO — 1

raffael petter

1. Sobre vampiros e um cadáver.


 
Não estava habituado. Não mesmo.
Aquilo tudo era muito novo para que eu conseguisse assimilar duma vez só. Nem que eu conseguisse viver mais uma centena de anos — o que eu acho que conseguiria—não me acostumaria com tamanha modernidade em que humanos vem avançando.
E vejam que em outubro deste ano completarei cem anos de existência.
Olhei duas vezes para rua para ver se vinha algum carro. Embora se um carro conseguisse me atropelar, o prejuízo seria totalmente dele já que dentre em instantes, meu corpo se regeneraria.
Atravesso a rua.
A vida de um vampiro é igualmente comparável a de um humano. Isto é, ambas tem os prós e os contras. Mesmo sendo imortal nós, vampiros, corremos o risco de morte. Basta sair num da quente de verão para que logo comecemos ter a pelo completamente hidratada. Se um vampiro ficar durante um longo período de tempo exposto ao sol, este entra imediatamente em combustão.
Viro a esquina à direita.
O que eu não estava acostumado mesmo era essa veneração em que a mídia vem nos pondo (vampiros).
Primeiro veio Bram Stoker com aquela a sua visão medieval dos vampiros; Anne Rice em seguida com a sua aproximada versão do "mito do vampiro" e por fim Stephenie Meyer com a sua versão um tanto diabética dos vampiros, que a meu era romanesca demais.
Olho em meu relógio.
Tinha que chegar ao bar ás nove da noite.
Quem pensa que vampiro não paga as contas está muito enganado. Levamos uma vida tão normal quanto à de qualquer outro ser humano.
O Lar do Diabo era um pequeno pub localizado no centro do distrito de Peba City. Era um lugarzinho muito badalado considerado "Cult", pelos cidadãos que ali viviam, apesar de que alguns desses cidadãos serem caipiras e não saberem o real significado da palavra, usando-o pedantemente.
— E aí, Gaé... — cumprimenta Leonardo me jogando um avental preto. Ele sempre apelidara como se eu fosse um irmão dele um parente próximo. —Que bom que você chegou... A macaca está solta...
—Você está atrasado, senhor Gael — disse a macaca (minha chefe). Marieta era mulher que beirava os quarenta e cinco anos, porém, o humor rabugento que tinha deixava-a com cinquenta anos. Cabelos platinados, maquilagem escura e piercing no nariz, ela era totalmente careta.
Checo novamente meu relógio.
Não; não estava.
Antes mesmo que eu pudesse contra-argumentar:
— Vamos, você tem pratos sujos pra lavar— diz ela apontando com os braços, para porta de vaivém vermelha que dava para cozinha.
Suspirei desanimado indo na direção dos pratos imundos.
Se fossem algumas décadas atrás, a essa altura, Marieta estaria sem a cabeça...

***
Se eu fosse um daqueles vampiros selvagens, cujos deixam o instinto tomar de conta de seus corpos, simplesmente sairia atacando os humanos a minha frente. Pularia em cima da pessoa e fixava os dentes em sua jugular.
Como não era de fazer esse tipo, me contentava apenas em receber ordens e lavar pratos. Alguns vampiros me chamariam de acomodado; outros de preguiçoso. Eu me consideraria esperto.
A cozinha era uma caixa retangular de sapato toda em azulejo branco e asséptico com uma luz branca, fria. Meu escritório baseava-se a uma pia com uma pequena mangueira de alumínio da onde saia um jato de água quente, qual eu regulava a quantidade de água expelida.
Outra modernidade humana...
Ah, não podia me esquecer! Tinha ali, uma secretária. A cozinheira, a grande cozinheira Amanda!
Uma garota balofa de cabelos rosa cortados em channel, qual usava no nariz de batata um piercing.
—Amanda... — digo quando a vejo entrar toda esbaforida— como vai?
—Mal— respondeu Amanda em seu mau humor recorrente. —A macaca está solta aqui hoje, hein...
— Normal...
— Se eu tivesse um pouco mais de dinheiro, compraria a bosta desse lugar. E a primeira coisa como dona, seria por no olho da rua a vaca da Marieta...
—Seria demais— concordo rindo.
— VAMOS LOGO COM ISSO!PAREM DE JOGAR CONVERSA FORA E TRABALHEM MAIS!! — gritara Marieta.
O que fez Amanda desferir um dedo do meio em direção a porta...

***
—Toma— disse Amanda me entregando uma bandeja redonda de alumínio escovado com dois hambúrgueres e um copo imenso de coca-cola light.
Outra coisa que eu não conseguia entender no avanço humano.
Uma bebida com menos calorias, só que numa quantidade exorbitante!
O pub começava a encher, criando vida.
Procurei para mesa doze.
Uma das últimas mesas, que ficavam perto do pequeno palco, onde às vezes, alguns grupos de rock alternativo vinham se apresentar.
— E aí Gael? — disse Paulo o velho caminhoneiro da cidade — Como vai indo?
Como eu ia indo?
— Muito bem e você? — perguntei fingindo interesse em sua vida sem graça.
E antes que ele conseguisse juntar as palavras para me responder, uma mulher irrompe pub adentro arquejando desesperada.
—O que foi? — pergunto, segurando-a antes que ela caísse desmaiada no chão.

***
—Espero que ela não esteja morta, pois senão descontarei em seu salário Gael... — disse a orangotango chefe atrás de mim. Como se eu tivesse culpa de ela ter tombado desmaiada em meus braços.
Além dela estavam atrás de mim: Amanda, Leonardo e Paulo que olhava de mim para mulher com uma cara de parvo.
— Ela não está morta... — anuncio ouvindo o pequeno e frágil coração dela bater na caixa torácica. —Ela apenas desmaiou...
Pego um chumaço de algodão e o mergulho num pouco de álcool; por fim, passo-o suavemente perto do nariz da desmaiada.
Tão logo ela recobrou a consciência falando:
— Preciso de ajuda... Meu marido, ele foi... ele foi atacado por um animal...um monstro... —ela repetia aquilo desesperadamente, com os olhos arregaladíssimos, como se o monstro estivesse ali, na sua frente.
— Onde ele está? — perguntou Amanda aproximando-se, de repente, da mesa sob onde a mulher estava deitada.
—Na floresta... Nós tínhamos ido acampar... Íamos comemorar nosso aniversário de casamento... Foi então que um animal enorme veio e atacou Filipe...
Aquilo era muito estranho, pois em Peba City quase nunca havia mortes, a não ser por morte natural de velhos.
— Querida, mas que ideia de jerico também, né? —começou Marieta metendo o bedelho. — Comemorar o aniversário de casamento no meio duma floresta... —disse para depois se afastar.
A mulher começou a chorar.
— Não liga não, ela é louca assim mesmo... — diz Amanda numa tentativa de acalmar a moça, exercitando o seu show de Stand-up comedy.
—Ei, você e você venham comigo, vamos buscar o marido dela— disse Filipe apontando para mim e Leonardo. —Ou que sobrou dele...
Antes que a porta do pub pudesse fechar atrás de minhas costas pude ouvir Marieta gritar:
— Aonde eles vão?Vou descontar do salário deles!
E Leonardo dizer:
— Merda!Podia ter ficado em casa hoje...
E por um momento fiquei pensando se eles iriam procurar por mim caso um dia eu desaparecesse de repente.

***

A velha picape de Filipe estacionara bem perto da entrada da floresta.
O céu estava sem estrelas e lua. Sabia que a busca do marido da Rosangela (eis o nome dela) seria uma tarefa árdua, já que com apenas duas lanternas se tornava quase impossível fazer uma busca. Se começássemos a fazê-lo seria uma verdadeira busca a uma agulha no palheiro.
— Bom, eles devem ter acampado naquela clareira onde se montas barracas — disse Filipe— melhor ficarmos juntos, pois será fácil, fácil nos perdemos nessa floresta...
Olhei para mata fechada a minha frente.
Sim, para humano seria fácil, fácil.
Adentramos na floresta e seguimos por uma trilha muito usada por aventureiros. Uma trilha estreita e íngreme que com qualquer deslize levaria uma pessoa desatenta ao chão.
Eu e Filipe carregávamos as lanternas, enquanto Leonardo ficava entre nós como uma criança obediente que num piscar de olhos poderia ser perder a qualquer instante.
Uivos podiam ser ouvidos não muito distante. O barulho incessante dos grilos eram os ponteiros do relógio da mãe natureza.
Os batimentos de ambos os meus parceiros aceleravam a cada passo dado à frente.
Um cheiro além, das folhas daquelas árvores, rescendiam no ar... Um cheiro que não me era desconhecido... Cheiro que excitava cada vez minhas narinas e fazia minha boca salivar...
Sangue...
Era quase impossível, ignorar aquele aroma ferruginoso ventilando pelo ar...

***

Depois de caminharmos um bocado de tempo nós nos deparamos como uma bifurcação.
— E agora? — perguntou Filipe coçando a careca— Por aonde a gente vai?Eu não me lembro qual era o caminho, faz tanto tempo desde que eu não venho aqui... Desde que Eliza morreu... — disse ele numa voz emocionada por uns instantes olhando para o horizonte em busca de memórias passadas.
Eu sabia por onde.
Ele me chamava; o sangue.
— Que tal fazermos o seguinte: eu vou pela esquerda e vocês vão pela direita?Se algum de nós o encontrarmos primeiro ligamos uns para os outros.
Eles concordaram seguindo em direção do outro caminho; sigo pela direita.
Corria feito uma besta selvagem. O cheiro de sangue atiçara em mim esse instinto animalesco, selvagem; instinto esse que há muito tempo não utilizava. Os galhos de arbustos e árvores menores batiam em meu rosto, o junco de folhas secas embaixo de meus pés era triturado com ruídos.
Quanto mais eu fui avançado mais pude ver a minha frente surgir um ponto tênue de luz que depois fora se tornando cada vez mais forte.
Era uma fogueira.
Ou o que restara dela.
As brasas duma fogueira estavam acesas no centro duma clareira ladeada por uma barraca de acampamento rosa.
O local estava uma verdadeira mixórdia. Cadeiras de plásticos jogadas de pernas pro ar, caixa de isopor totalmente despedaçada, cobertores feitos em retalhos espalhados pelo chão e dentre outras coisas mais que não dava para atentar direito, porque eu estava preocupado em outra coisa.
O cheiro de sangue estava próximo...
Ele praticamente boxeava meu nariz para eu segui-lo.
Foi quando encontrei o cadáver no chão.

***

O corpo estava afogado numa poça feita de seu próprio sangue. Tinha no rosto uma carranca de dor e medo. O cheiro de sangue que vazava daquele corpo estava me deixando louco...
Por pouco não cai em cima dele, sugando-lhe o que sobrara de sangue.
Todavia, me contive, pois havia algo, um objeto reluzente, caído ao seu lado. Além de que, consegui me lembrar da promessa que havia feito para mim mesmo.
Era uma insígnia, uma pequena cruz de ferro pintada de vermelho, cortado por um xis...
Não, aquilo não...
Procurei ao meu redor pelo dono daquele objeto que eu conhecia tão bem. Nada...
Ele havia desaparecido... Como era de se esperar.
Pego do meu celular e ligo para Leonardo.
— Encontrei o corpo...

quinta-feira, 2 de maio de 2013

CRÔNICAS DE UM VAMPIRO — PRÓLOGO

 

cronicas de um vampiro



 
O Último Encontro

 
Podia vê-la caminhando até mim com aqueles olhos grandes e castanhos, normais; porém, sedutores.
Trazia nos lábios vermelhos e saborosos um sorriso malicioso que nunca a tinha visto usar desde que eu a conhecera...
—Você não estava proibida de sair de casa? — digo enlaçando-a, logo após, em meus braços num forte aperto para depois beijar-lhe os lábios desdenhosos.
Havia algo de estranho...
Quando meus lábios tocaram o dela era como se eu estivesse beijando uma estátua fria e insensível. Uma bela estátua; mas, ainda assim uma estátua.
Paro de beijá-la imediatamente.
— O que é que você tem? — pergunto segurando-a pelos ombros — Você parece estranha...
— Sério? —disse ela sem se preocupar em esconder o tom de desdém que normalmente ela não usava— Normal...
— Tem certeza?
— Total...
Olhando bem para ela algo havia mudado. Não somente em seus atos. O visual que agora ela adotara estava diferente. Não era a Eva que eu me apaixonara.
Quero dizer... Sim, era ela; porém, ao mesmo tempo não o era.
O cabelo que normalmente ela deixava solto, caindo sobre o busto pálido como a lua, estava preso num rabo de cavalo muito bem amarrado, emprestando-lhe ao rosto redondo e alegre um tom sóbrio, rígido. As sombracelhas finas e delgadas entregavam a malícia existente que haviam possuído aqueles olhos...
— Gael posso perguntar uma coisa? —diz ela dobrando o pescoço como um passarinho curioso. — Como se mata um vampiro?
— Por que a pergunta? — rebato encarando-a.
Havia alguma coisa naquela situação toda que me fazia suspeitar, algo falso que ainda não tinha percebido...
—Ah... é que...é que... — tenta explicar virando o rosto para direita, na direção da lua nova. Apesar das mudanças ela continuava tão linda...
—Se eu contar você promete não me matar quando formos morar juntos? —brinco com uma piadinha um tanto infame. Ela sequer se dera ao trabalho de rir. —O único meio de me matar, seria através duma estaca de madeira, qual deveria ser fincada em meu peito; no coração...
Ela piscou os grandes olhos e convidou numa voz suave:
—Me beije...
E sem pensar duas vezes a beijo vorazmente. Nossas buscam umas as outras, buscando sensações nunca experimentadas antes.
Tive que conter meu instinto brutal e animalesco que queria crivar o dente naquele pescoço cheiroso...
O mundo não nos era mais importante. Éramos um só.
Bom. Pensava assim até que algo afundou em meu peito provocando uma dor aguda insuportável. Algo havia atravessado a pele sob meu peito, perfurando-o, indo em direção ao coração.
De repente, o ar me faltara.
Minha vista começou a embaralhar; via a minha frente uma duplicata de Eva.
O pior de tudo era que eu não conseguia acredita. Aquilo não era possível! Outra pessoa, só poderia ter sido!
Não ela; não ela!
— Por quê? —perguntei me dobrando de joelhos— Por que você fez isso?
— Gael, querido não te amo mais... — disse ela explodindo em risadas e afundando a estaca ainda mais em meu peito.
Dor da estaca dilacerando minhas entranhas uniu-se ao meu coração quebrado...
Aquela não poderia ser Eva...
Não podia...
Não acreditava...
Isso fora confirmado, momentos antes de eu cair de borco no chão.
Havia um colar que ela trazia no pescoço qual eu não notara antes...
Antes que eu pudesse reagir, minhas vistas foram se apagando como num teatro no final de um espetáculo quando se apagam as luzes, deixando os aplausos da plateia no escuro...
No meu caso não existiam aplausos...
 
CONTINUA

A HORA DOS LOBOS —EPÍLOGO : A LOBA E A VINGANÇA

raffael petter
 
 
—Tabatha, você está bem? — perguntou Tyler, me encarando com aqueles olhos verdes-esmeralda.
Estava deitada num divã roxo e fofo perto duma janela com cortina de renda branca. Era a mesma sala em que segundos, eu bisbilhotara a conversa entre pai e filho...
—Ouvi tudo o que vocês disseram... —digo categórica. —Sou mesmo uma loba?
— Pai você pode me dar licença? — perguntou Tyler dirigindo-se ao homem que estava logo atrás dele.
—Esperarei pelos dois lá fora. — respondeu o pai de Tyler, um senhor de seus quarenta e sete anos de idade, com olhos verdes iguais ao do filho e sorriso franco nos lábios. Olhando, podia-se perceber que daqui alguns anos Tyler se tornaria uma figura igual aquela.
—Pode começar... —disse quando o pai dele fechou a porta, deixando-nos a sós. Tyler pegou uma cadeira próxima do divã e sentou-se perto de mim. Tentei me erguer, mas meu corpo ainda estava muito cansado.
—Por onde eu começo... —disse ele num monólogo, passando as mãos pelo rosto.
—Que tal pelo início? —disse irônica.
—Tá. Quando eu tive no cemitério naquele estado eu sabia que você morreria... Você havia perdido muito sangue e não resistiria por muito tempo. Por isso, corri o quanto minhas pernas puderam para chegar aqui...
Ele fez uma pausa olhando para mim com os olhos cintilantes como se certificasse que se estava bem.
Então, aproveitei a deixa para fazer uma pergunta.
— Mas se você não tivesse dado o seu sangue para eu beber, eu teria me tornado uma vampira?
—Não... De modo algum. Para isso seria necessário que Valerie desse um pouco do sangue dela para você tomar...
Por um breve momento aquela cena da desgraçada tomando meu sangue, voltou pela minha cabeça...
—Acho que ela queria me matar mesmo... —disse soltando um suspiro profundo.
—Tabatha, não houve outro jeito... Se eu não tivesse dado o meu sangue pra você... Você estaria morta. O sangue de nós lobos tem a capacidade de regeneração um pouco mais rápida do que a dos seres humanos... Apesar de você ainda estar um pouco fraca, mas é que o sangue ainda está agindo em seu corpo, muito provavelmente, porque suas células humanas estão se combinando com as células lupinas...
—Isso quer dizer então, que aos poucos me tornarei uma loba?
—Sim— respondeu ele acenando.
— E quando me transformarei? —perguntei bocejando, o sono de algum modo começou a me invadir.
Não agora, não, por favor, sono...
—Acho melhor continuarmos esta conversa depois...
—Não... —disse soltando um bocejo de urso faminto— Pode continuar...
—Só tenho uma coisa a te dizer... —disse ele se aproximando.
—O quê? —perguntei com a voz sonolenta.
—Eu te amo... —disse beijando minha testa.
Mais uma vez, adormeci...
***
—Você tem certeza, Tom?
— Absoluta.
—Você pode mesmo localizá-los? —perguntou Juan, tomando sangue numa taça, que acabara de retirar de mais uma de suas vitimas, a amiga de Azálea, a Mirtis uma velha de sessenta e poucos anos, que sempre ia visitar o casal Leônidas, sobretudo, para discutir jardinagem com Azálea.
Porém, seu corpo pequeno vestido por um conjunto moletom de rosa Pink, jazia sobre a mesa que horas atrás sua amiga havia sido morta, de modo que o sangue que escorria por dois furos em seu pescoço corresse mais rápido.
Tinha ido ali, na casa dos Leônidas, para informar que acabara de ganhar o concurso de melhor roseira silvestre (mesmo tendo ficado em terceiro lugar). Estranhara quando fora atendida por um jovem que se apresentava por Tom...
—Sim. Posso — respondera Tom terminando a sua taça, estalando a língua de contenção.
—Não se preocupe Valerie, eles terão o que merece... —disse Juan acariciando a cabeça branca e sem vida de Valerie.
Depois ambos os vampiros explodiram em gargalhadas, que perfuraram a noite de céu estrelado.

FIM DA PRIMEIRA TEMPORADA






 

 

sábado, 27 de abril de 2013

A HORA DOS LOBOS Cap.12

a hora dos lobos

12. Uma cabeça.

A casa dos Leônidas ficava na parte mais afastada de Peba City. A casa era uma das mais velhas de toda a cidade, tinha pelo menos mais de cem anos.
 Era uma antiga construção toda feita em madeira pintada de branca com uma larga varanda em sua frente. Apesar de o tempo ter passado os velhos moradores, um casal de velhos soubera a conservá-la bem.
O jardim com esculturas de elefantes feitas em arbustos estava sempre muito bem aparado, quem os vissem de primeiro momento diria que fora podado por algum profissional, pois os animais eram muitos reais.
Porém, eles não foram criados pelas mãos de um profissional e sim pelas mãos de Azálea Leônidas, mulher de Adamastor Leônidas o banqueiro de Peba City.
Formavam um belo exemplar de casal de sexagenários que qualquer um casal desejaria se tornar quando chegasse à idade dos dois.
Azaléia cuidava da casa e do jardim com auxilio de funcionários enquanto Adamastor cuidava de sua tão preciosa biblioteca. Ele passava a maior parte do dia lendo, Azaléia não reclamava, pois teria mais tempo para cuidar de suas tão preciosas bromélias raras.
Como havia dito, eles formavam um belo casal. Ela com sessenta anos ainda mantinham um resquício de beleza. Lábios pequenos, rosto redondo e cabelos cortado no estilo channel. Ele um pouco menos, apesar de ainda manter aquela pose aristocrática e elegância que herdara com passar dos anos como o maior banqueiro da cidade. Olhos verdes espertos, boca com sorriso irônico e uma quase rala cabeleireira no topo da cabeça.
Porém, certa noite quando estavam jantando, a campainha da casa toca.
Quem seria? Perguntara-se o casal.
— Quem é? — perguntou Adamastor a Azálea.
—Não sei... Não convidei ninguém.
Interromperam a refeição esperando pela volta da empregada que traria respostas.
Depois de meia hora de espera:
— Cadê a Inês, que não volta? —perguntou Adamastor.
— Deve estar conversando na copa com o cozinheiro... — disse Azaléia se levantando.
Contudo, pouco depois de se levantar da mesa ela voltou a se sentar.
Entrava na grande e luxuosa sala de jantar dois homens uma mulher.
—Opa!Chegamos na hora certa... — disse um cara de cabelos negros e grandes com um sorriso torto de lábios sujos de algo vermelho...
— Estou morto de fome... — falou o outro um magrelo e loiro com cara pálida, como papel massageando a barriga. Ele tinha o rosto anguloso, meio andrógeno.
—Eca!Sangue de velho... —completou a mulher. Ela era espetacular!Busto cheio, cabelos cacheados e louros, aparentava ter uns trinta anos mais quando soltava aquele sorriso irônico parecia ter menos.
—O que vocês querem? —perguntou Adamastor com a voz tremula como uma folha pendente dum galho.
— Não tenho paciência com velhos, Juan! — gritou a mulher para homem de cabelos negros que parecia ser o líder do trio.
— Calma, mana, Valerie... —disse ele sorrindo— Será rápido... —disse ele com os dentes caninos retraídos, pontiagudo, prontos para o ataque.
—Posso ficar com a velha? —perguntou o loiro magricela.
—Pode sim Tom— respondeu Juan acenando com a cabeça.
Assim como Juan, Tom e Valerie retraíram os caninos, famintos.
— Estou faminta... —disse Valerie saltando em cima da mesa.
***
—O que a gente faz com os corpos? —perguntou Tom.
—Enterrem no jardim... Junto com os corpos daqueles dois criados que matamos também... —disse Valerie.
— Como assim “enterrem”? —perguntou Juan, chutando o lívido Adamastor que jazia morto a seus pés.
—Vou dar uma volta pela cidade...
—Mentira! — disse Juan pegando no braço de Valerie com brutaleza. —Você vai encontrar o desgraçado do Bastian...
—E se eu for? — refutou arrogante. —Penso que isso não seja da sua conta...
—Não basta o que ele te fez no passado?
—Quem vive do passado é museu, agora me largue.
—Valerie... —disse ele soltando o braço dela.
—Eu sei me cuidar sozinha... — disse dando as costas pros dois vampiros.
Por dentro, Juan fervilhava de raiva. Odiava de corpo e alma (se a tivesse) Bastian Blake.

***

— Você não acha que Valerie está demorando? —perguntou Juan sentado na cabeceira da mesa, a mesma que os Leônidas horas antes jantavam.
—Isso é normal... —respondeu Tom. —Quando Bastian e Valerie se encontram... Houve uma vez em Paris em que eles ficaram...
—Me poupe da novela— disse Juan fazendo com o outro se calasse.
Ficaram calados durante mais uma hora que se passara. Haviam caído num silêncio mórbido e entediante.
Juan se cansara de tanto esperar e disse ao outro vampiro:
— Você não quer trazê-la de volta?
—Posso tentar vai meio improvável ela querer voltar... Principalmente quando ela reencontra o Bastian...
— Não importa. Quero pelo menos saber onde ela está. Se ela está bem.
— Cara, logo a Valerie?
—Vá, logo! —disse Juan.
—Tá, tá...
Juan ficou observado pela janela. Vira quando Juan desaparecera nas trevas...
Há algo de errado, pensou Juan, posso sentir...

***

Não acredito nisso, pensava consigo Tom enquanto corria pelas ruas de Peba City, porque sempre eu?
Podia sentir o cheiro de Valerie flutuando no ar. Era como se tivesse um fio de cheiro flutuando no espaço. A maioria dos vampiros possuía esse cheiro especifico. Esse o era o cheiro de quando eram vivos.
No caso de Valerie, ela cheirava a rosas vermelhas.
Parou em frente duma igreja caindo aos pedaços.
O que ela veio fazer numa igreja? , Pensou ele, Espero que ela não esteja fazendo nada profano...
Ele entrou na igreja e sentiu o cheiro de outros três vampiros e duas humanas.
Foi até o corredor.
Não encontra ninguém.
Volta.
O nariz dele estava aguçado, farejando o ar com um cão perdigueiro.
Onde você está Valerie? , Perguntou Tom para si.
Voltou para o átrio da igreja. Olhou para o céu escuro que começava a esmaecer, recebendo gradualmente tons alaranjados.
O sol nasceria em breve.
Farejou o ar.
E correu na direção do cemitério...

***
Aquelas lápides todas, não lhe causavam estranheza como antes, quando humano.
A morte era algo, banal.
Tão banal que adorava ver a vítima morrer, esvaindo em sangue.
Sangue... Fonte de vida e prazer...
O cheiro estava se tornando mais forte...
O cheiro de rosas que sua irmã exalava era inconfundível...
Atravessou o portão que dava em direção a floresta e lá estava ela, Valerie morta no chão. O corpo desfigurado dum lado e a bela cabeça do outro...
O corpo de Tom fora possuído por um tremor... As mãos tremelicavam como vara verde...
—Não!
Nervoso, abriu uma cova no solo e enterrou o cadáver da irmã.
Havia outros cheiros ao redor, naquela parte onde a cabeça da irmã estava jogada...
O cheiro de uma humana e de um lobo...
Pegou da cabeça da irmã pelos cabelos e disse olhando em seus olhos de peixe morto:
—Não vai ficar assim... Vingarei sua morte...

***
O dia começava a raiar quando Tom chegou à casa dos Leônidas.
Trazia consigo aninhando nos braços a cabeça da irmã.
Não sabia bem o motivo de tê-la trazido consigo. Talvez, fosse pelo motivo de ela ser tão bonita...
Um rosto tão belo, Concluiu consigo com os olhos marejados, Não merece ser comido pelos vermes...
—Então? —perguntou Juan virando-se de frente para Tom assim que esse entrou na sala de jantar.
Tom não precisou responder, pois os olhos de Juan desceram imediatamente para o volume em que os braços de Tom abraçavam.
— O que? — questionou.
Porém não havia mais tempo para respostas ou perguntas, pois lá fora o sol raiava.
Ambos  correram , buscando refugiar-se no sombrio porão da casa dos falecidos Leônidas.
Adormecendo no colo da morte...

 

CONTINUA

 

sexta-feira, 26 de abril de 2013

A HORA DOS LOBOS Cap.11


 

imagens de lobos correndo


11. Ainda viva
Pude sentir o sangue escorrer pelo meu pescoço e empoçar por debaixo de minhas costas; o sangue estava quente...
Pude sentir minha respiração indo aos poucos fraquejando, respirava com muita dificuldade...
Pude sentir minha visão esmaecendo, deixando tudo em volta, mergulhado num breu completo...
Por fim, pude ouvir as asas da morte baterem,aproximando a cada segundo,de mim...
Parecia que estava dormindo num sono há muito desejado, um sono represado, que agora como um dique, de repente, se rompera inundando tudo...
Estava imersa num sono profundo...
O único dos sentidos que ainda funciona em meu corpo mesmo com certa dificuldade, era a audição...
Conseguia ouvir em minha volta os sons do ambiente... Os lábios de Valerie em meu pescoço como uma sanguessuga faminta...
O trilar dos grilos...
E um rosnado...
Se aquilo fosse algum pesadelo queria despertar imediatamente dele. Não, já estava na hora de acordar!
Bastava!
Aquilo tudo bastava!
Vamos acorde!,
Dizia eu consigo mesma, Vamos desperte deste pesadelo!Vamos Tabatha...
Porém, nada acontecera...
Nada...
Ainda estava nas trevas; apenas ouvindo os ruídos lá de fora.
Inclusive, pude ouvir o que Valerie disse ao desgrudar repentinamente de meu pescoço:
—O que você está fazendo aqui lobo desgraçado? — perguntou ela com raiva para os rosnados incessantes que agora eu sabia se tratar de um lobo... —Acho que eu sei de quem se trata... — falou farejando o ar. Minha audição apesar de fraca, de alguma forma, manteve-se aguçada o suficiente.
Em reposta, Valerie recebera rosnados ainda mais altos.
—Então é você Tyler Black?
Era aquilo mesmo que eu acabei de ouvir?Tyler... Então ele recebera as minhas mensagens... De repente, sou tomada por uma onda de ânimo; mas do mesmo lugar que essa onda surgiu, ela voltou...
— Veio se juntar a essa humana? — perguntou zombeteira.
Depois uma explosão de gargalhadas.
Farfalhar de folhas, asas batendo e o rosnado do Tyler, do lobo...
— Você vai morrer desgraçado... —berrava a vampira do alto. —Depois, terminarei de matar a humana...
A voz dela estava fina e cortante.
O que aconteceu a seguir eu não consegui compreender muito bem... Foi uma verdadeira mistura de gritos e rosnados... Com certeza, Tyler e Valerie brigavam...
Se tivesse forças suficientes para me levantar do chão eu teria partido para aquela briga, ajudaria Tyler...
Alguns minutos se passaram até que não consegui ouvir mais nada.
Apenas o silêncio reinava...
Adormeço.
***
Não sei se fiquei desacordada por muito tempo, só sei que acordei ao som de pés se aproximando...
Seria Tyler ou Valerie...?
Só de pensar meu coração se partira ao meio...
A pessoa parou perto de mim... Agachou-se, aproximou a respiração ofegante e perguntou:
—Você está bem?
Aquela voz era de Tyler. Eu queria me levantar e abraçá-lo e dizer que estava...
Mas como havia dito antes, estava sem forças.
—Oh, céus... — exclamou ele. —Não se preocupe te levarei para casa. Meu pai saberá o que fazer... —disse ele me erguendo do solo, me carregando em seu colo.
Abri os olhos e o vi tão belo quanto antes... Havia manchas de sangue por sua boca e por uma parte de seu pálido e forte peitoral...
Os olhos aqueles olhos verdes como esmeraldas tinha uma tonalidade completamente diferente agora...
Sorrio.
E volto a dormir.
***
Assim que despertei, percebi pela cama que deitava e o quarto que estava que aquela não se tratava de minha casa. A cama de madeira toda em talhada e os moveis todos de bom gosto e refinamento, afirmavam isso. Principalmente, o quadro que ficava à minha direita acima dum aparador que trazia na pintura três homens. Tyler lindo como sempre à direita e Bastian com um sorriso cínico à esquerda, no meio ficava um homem de cabelos grisalhos e queixo grande, quadrado.
Aquela casa era a casa de Tyler.
De repente, tudo que acontecera na noite anterior me veio à cabeça numa sucessão de flashes. Era como se eu assistisse num telão a uma macabra exposição fotográfica...
Lembrei de Valerie, de Tyler, da carta, de tudo...
A janela a minha frente pude ver que era dia. O sol brilhando num céu azul sem nuvens ao som de pássaros que comemoravam o dia ensolarado.
De repente, lembrei-me da minha mãe...
Será que ela...
—Não se preocupe... — disse Tyler. —Ela está em casa...
Com sede, meus ouvidos seguiram na direção daquela voz. O dono dela se encontrava sentado numa poltrona xadrez em vermelho e verde ao meu lado esquerdo...
Como não o havia percebido antes?
—Como você está?
—Bem... — disse lembrando a marca que deve ter ficado dos dentes de Valerie. Viraria vampiro? —Acho...
Minha voz soou fraca...
Droga!
— Por que você não me contou? — perguntou ele irritado.
— O quê? — disse como se não soubesse do que se tratava.
—Deixa de graça... —nunca o vira falar tão sério. — Porque você não contou que Tyler tava te ameaçando?
—Eu não podia... —disse a verdade.
—Como assim não podia? — questionou nervoso...
—Se eu tivesse contado a alguém que eu ia me encontrar com ele, Bastian mataria mãe... Por isso não te contei...
Ele ficou quieto.
Olhava para mim...
Queria perguntar pra ele se ele tinha raiva, mas meu orgulho não deixou... Ora, essa eu não tinha culpa se o irmão louco dele fizera minha mãe de refém...
—Descanse... Depois conversaremos... —disse ele levantando-se da poltrona e dirigindo-se para porta do quarto sem olhar para mim.
Fechou a porta e logo após adormeci...
O cansaço voltara...
***
Era noite.
As estrelas brilhavam no céu. E eu ainda estava naquele quarto...
Tentei me levantar, mas não consegui. Estava ainda muito fraca. Eu deveria ter perdido muito sangue...
Tento me levantar de novo da cama. Fiquei por alguns momentos sentada na cama.
Estava ainda zonza...
Bastava olhar para penumbra daquele quarto para que eu começasse a ficar tonta...
Esperei alguns minutos até que meu corpo convalescente se acostumasse para poder dar os primeiros passos como uma criança que aprende a caminhar. Só que eu não tinha o auxilio de meus pais pra me ampararem caso eu caísse.
A sensação de uma pessoa mordida por vampiro é a de estar seca... A cada mover de músculo travava uma grande batalha com meu corpo que parecia atrofiado...
Apoiei-me na parede de madeira e no pequeno criado mudo até que eu conseguisse chegar a porta.Quando cheguei a maçaneta minhas costas estavam banhadas de suor.
Torço a maçaneta e dou de cara com um corredor escuro e vazio.
Olhei para os dois lados antes de seguir a direita e fechar a porta atrás de mim.
***
Quando cheguei ao corrimão da longa escada de madeira eu arfava. Sabia que ainda estava fraca por que a pouca distancia que percorrera até ali era mínima além de que eu fizera o percurso todo me apoiando na parede.
Comecei a descer os degraus que rangiam a cada degrau que eu descia. Parecia uma daquelas escadas de filme de terror em que o assassino está à espera da personagem logo embaixo, com uma machadinha na mão pronto matar...
No meu caso não houve assassino algum, porém ao olhar pro espelho que ficava acima dum aparador no lado esquerdo, ao final da escada, eu me assustei.
Aquela figura que tinha como reflexo não podia ser eu... Estava irreconhecível!
Rosto magro, com olheiras quase roxas como se eu não tivesse dormido há séculos e lábios rachados... Além de que usava uma camisola pérola de cetim ridículo que nem minha avó usaria.
Literalmente eu estava acabada...
Sai de frente do espelho e passei por um cômodo que deveria ser uma sala de estar. Estava em penumbra e erma.
Saio desta sala e rumo para um corredor iluminado por luzes bem fracas, que fizeram com que eu apertasse os olhos para enxergar o caminho a minha frente.
Sou atraída por uma porta entreaberta. Um facho tênue de luz saia de dentro dela...
Aproximei-me sorrateiramente dela e pude ouvir a seguinte conversa:
— Você tem certeza que ela não vai se transformar num vampiro, papai? — perguntou Tyler preocupado.
Eu não o pude vê-lo muito bem, pois a poltrona em que estava sentado ficava de costas para mim. A pessoa com ele conversava (o pai dele) também não dava para vê-lo, a poltrona verde de veludo estava disposta de frente a do Tyler, impossibilitando desse modo minha visão.
Mas o papo continuou:
—Não se preocupe... Você fez tudo como eu te falei? —perguntou a voz da poltrona de veludo.
— Sim, fiz... Dei meu sangue para ela beber... — disse com a voz um pouco distante.
—Tyler, você tão bem quanto eu que se você não tivesse agido dessa maneira, sua namorada a essa altura estaria morta ou teria se tornado uma vampira...
—Sei bem disso... O problema é que... É que eu não queria que ela se transformasse...
—Foi o único jeito de salvar a vida de ela, isto é, mesmo tendo transformando-a em lobo... — depois de dizer tais palavras a sala que deveria ser uma biblioteca ou escritório, ficou em silêncio.
Aquelas palavras soaram como socos em meu ouvido.
Eu me tornara um lobo?
Aliás, eu era um lobo?
De repente, como num flashback dum filme comecei a me lembrar de uma determinada cena:
"—Vamos, beba Tabatha... — disse ele me colocando sob a cama de casal e me dando o sangue escorria de seu pulso. - Isso beba...
Eu tomava de bom grado, porém, tomava meio que inconsciente estava muito fraca provavelmente..."
Precisa saber a verdade...
Saindo do flashback e voltando ao peso da realidade, empurro a porta da biblioteca, surpreendendo Tyler e seu pai.
Contudo, não pude ver ou ouvir mais nada.
Pois caia desmaiada no chão.


CONTINUA