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domingo, 10 de novembro de 2019

Terror do Cotidiano 12 : O Sacrifício de Julia

contos de terror em milharal, raffael petter escritor


--Então, querida, você está pronta?---perguntou o pai da menina agachando-se na mesma altura que ela.
Julia brincava sentada no chão com uma boneca feita de pano de cabelos cor de ouro,sem olhos,boca e nariz.Sem expressão.
A criança estava concentrada na estória em que havia criado para seu brinquedo. Na verdade, aquela boneca em sua estória (que estava inventando em sua cabeça e que a todo instante o seu enredo era modificado) era uma heroína que enfrentava um monstro. O grande deus batata. Um deus malvado e sanguinário que requeria sacrifícios humanos de indefesos aldeões Sacrifícios que na verdade era infanticídio, isto é, eles teriam de sacrificar os próprios filhos em troca de proteção e  boa colheita oferecida pelo grande deus batata.
Naquele momento em que o seu pai a interrompera, a grande guerreira estava picotando o grande deus batata e distribuindo os seus pedaços aos aldeões que não precisariam nunca mais sacrificar os seus filhos.
-- Estou.—responde encarando o seu pai por uns segundos para depois voltar a sua narrativa.
                                                                              ***
O carro parou no centro do milharal. Ou no que sobrara dele.
É que fazia mais de dois anos que nada naquela terra crescia.Nada.
Naquela pequena cidade tudo o que plantavam morria depois de algumas semanas ou nem chegava a crescer. Isso fez com que os comerciantes e agricultores comprassem de terceiros ou fechassem as portas. Muitos preferiram a segunda opção,no entanto havia os primeiros que  entre o  cansaço (ou por falta de dinheiro para conseguir manter o seu estabelecimento) junto a uma  renitência caracteriscamente humana, decidiram  tomar uma atitude que séculos atrás seus antepassados tomaram.
Atitude que os pais de Julia também tomariam.
                                                                               ***
Deitaram Julia e mais duas garotas (ambas tinham a mesma idade dela ) em uma grande mesa de pedra no centro do antigo e sombrio milharal. A lua naquele momento havia se escondido como se estivesse envergonhada do que estava prestes a acontecer.
***
As garotas estavam vestidas de camisolas brancas e com coroas de flores ,tiritavam de frio e pavor.Julia olhou para seus pais,mas eles estavam impassíveis.
Agarrou a sua pequena boneca,a sua grande heroína com mais força. Lembrava de  ter dito que estava pronta horas antes,antes de chegar ali naquele milharal com todas as pessoas da cidade  e com aquelas meninas vestidas como elas,mas mentira. Mentir era pecado, sabia. Mas mentiu por medo, mentira para não decepcionar os pais.
Olhou para boneca sem expressão que abraçava e pôde ver finalmente um sorriso em seu rosto.
***
O padre pegou primeiro do sabugo de milho seco e depois da adaga. Esmigalhou o  sabugo sob as  meninas vociferando palavras muito antigas,(talvez latim ) e depois perfurou o peito de cada uma.
***
O sangue escorreu como um rio caudaloso e quente pela mesa fria de pedra para que o solo  pudesse bebê-lo  ainda fresco.
***
Julia olhou para os pais uma ultima vez e encarou o padre que beijou-lhe a sua testa e em seguida de suas companheiras, viu ele pegar do sabugo e da adaga.
Aquele era o deus batata. E ela era o seu sacrifício.
E antes que o padre perfurasse o seu coração, fecha os olhos desejando que a sua grande heroína pudesse lhe salvar.

Para ler o conto anterior a esse , clique aqui!
Gostou dessa estória? Quer papear comigo sobre? Me contate no instagram : raffaelpetter será um prazer em conversar com você <3.

sábado, 15 de novembro de 2014

Terror do Cotidiano 8 : A Viscondessa


raffael petter

I
Ligou para Tereza. Disse que ela reunisse seus melhores amigos,pois tinha algo a lhes contar.
  II
Casa de Tereza. 
Estavam na sala: ele,Tereza, Humberto(amigo de Tereza) e Mariana(também amiga de Tereza).
Jogavam conversa fora,no entanto, Tereza sabia que algo estava acontecendo...
III
Já anoitecera quando Tereza pergunta:
- Cadê ele?
- Deve estar no banheiro...
- Nossa esse banheiro fica aonde Mariana? Em Neverland? –respondera Humberto. Tereza cai na risada. Mas continuava nervosa e com aquela sensação de que algo estava prestes a acontecer...
IV
Ele voltou a sala escondendo algo atrás das costas. Todos observavam atentos. Não era aniversário de nenhum dos presentes ali.
- Tenho um presente pra você ,Tereza— disse Tirando o que escondia: um sabre.
Desembainhou a arma branca cravejada de pedras preciosas e degolou Tereza.
V
Um banho de sangue. O corpo da Tereza parecia uma fonte interminável de sangue.
Mariana gritou,gritou,gritou...
Humberto, em choque tentou deter ele, mas ele fugira. 

Para ler a estória anterior a essa basta clicar aqui!

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Terror do Cotidiano 5 : Doroti

Contos de Terror com bonecas


Doroti segurava Melissa com muita força. Era a sua única amiga. Olhou para as nuvens negras no céu e o furacão saindo dentre elas vindo em sua direção.
Mirou a boneca de pano pendente em sua mão direita. Melissa não se pronunciava por quê?,pensou a garota. Momento antes de fugir do sótão de sua casa pode ouvir Mel (era assim como a chamava), lhe dizer que aqueles dois furacões as levariam a terra de Oz. Contudo, a boneca de pano,de repente, calara-se em seu mundo de imobilidade.
O vento se tornava cada vez mais forte. O milharal se curvava a aquela força que parecia inexorável. A ventania silvava... Parecia tentar se comunicar com a a garotinha.
Doroti deixou as lágrimas fugirem para logo em seguida enxugá-las com os punhos. Olhou para trás. Ainda dava tempo de voltar. Voltar para casa. Retornar aos braços apertados e ternos de sua vó que adormecera no sótão.
O furacão se aproximava.
Olhou mais uma vez para casa de madeira atrás de si.
Observou Mel por uns instantes e esta lhe sorrira.

Não podia voltar. Teria que ir para Oz. Não poderia voltar.

Leia a estória anterior a essa aqui!

Terror do Cotidiano 4: A Foto

Contos de terror mais fotografia
Não lembro que matéria foi essa :(

- Por que tínhamos de vir justo pra cá Marcos? Credo, esse lugar me dá arrepios... —disse Lorena esfregando os braços. Estava frio e uma densa neblina cobria todo o Alcatraz.
-Ué,fotografar...
-Não seja cínico Marcos...—disse ela sorrindo.—Viemos aqui por causa do meu ensaio fotográfico. Nada mais.
-Certeza?—disse ele erguendo a sobrancelha grossa.
-Sim, certeza –responde atrevida. Aproximou-se de Marcos. Beijou-o e pegou da máquina que estava em suas mãos.—Tire a roupa,vamos.
-Você está louca?
-Não. Vamos, tire a roupa.
Marcos sorriu e começou a se despir. Casaco, calça e sapato. Ficara só de cueca.
Fora então que Lorena começara a fotografá-lo: click,click,click. Tirara muitas fotos, muitas.
-Acabou já?—perguntara Marcos ao notar que Lorena parara de tirar fotos subitamente. Centrada, ela observava a máquina. Isso preocupara Marcos. —O que foi?
Estende a máquina ao fotografo.
No visor, Marcos estava com a língua pra fora e vesgo, mas o que chamava atenção era a pessoa atrás dele. Um homem com saco de papel na cabeça com dois furos na altura dos olhos, segurando um machado. Olhou imediatamente para trás.
Não havia ninguém.

Se não leu o conto anterior a este , leia-o aqui!

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Terror do Cotidiano 3 : Os 3 Raios

O Primeiro Raio: Ressuscitada
A lágrima de Mayara escorrera por sua bochecha e caíra na lápide de sua mãe. Não adiantaria secá-la, pois chovia. Uma verdadeira tempestade. Nuvens fechadas, feitas de chumbo, rondavam a sua cabeça. O clima relacionava-se com o que Mayara sentia naquele momento: a dor obscura da perda. A dor da saudade de perder alguém que se ama. O coração sendo esmigalhado pela garra da saudade: não mais veria a mãe; não mais sentiria o seu cheiro; não mais ouviria sua voz; não mais sentiria o seu afago.
Estava sozinha no cemitério. O pai a esperava do lado de fora. No entanto, não podia, não queria sair dali. Precisava fazer companhia à mãe falecida. Amassou-se na lama, esfregou-se na rala grama.
Chovia.
Chorava.
***
Foi tudo muito rápido: o céu estremecera parecendo desabar: um raio cortou-o em direção da Mayara. A garota não teve tempo de se levantar, fugir.  Também não queria. Estirou-se de peito aberto no tumulo materno, esperando o raio atravessá-la.
***
Foi despertada com um toque na testa. Um toque frio e molhado. Abriu vagarosamente os olhos ,sentindo vir junto ao ato uma enorme dor de cabeça. Não se recordava de nada do que acontecera.
Olhou para cima e gritou num misto de horror e euforia: sua mãe havia ressuscitado.
O Segundo Raio: A Salvação
Souza  finalmente sacara o primeiro pagamento de seu novo emprego. Suara para tê-lo. Trabalhava como repositor de mercado: um oficio que exigia muita paciência e agilidade. Meses atrás estava desempregado com a mulher grávida. Quando parecia sufocar e pensava em se matar o mercado ao qual enviado um currículo lhe liga  contratando-o.
Tudo bem que o salário não era o melhor de todos,contudo,dava para ir aos poucos abastecendo a casa e  ir comprando o enxoval da criança: uma menina como  ficara sabendo hoje ,quando Sandra lhe ligara ,na hora do almoço.
***
Desceu do ônibus. Armou o guarda-chuva e seguiu andando. O céu parecia estremecer quando um cara encapuzado aborda Souza, com revolver em punhos.
-PASSA A GRANA!
***
Não podia entregar o dinheiro,mas não havia alternativa.Ou era isso ou era: morte.Hesitou ao entregar o pacote ao bandido.Isso fora o suficiente para que ele puxasse o gatilho.
No mesmo momento ,um raio coriscou na direção dos dois, fazendo com que tudo ao  redor deles estremecesse. Porém, antes de ir ao chão,Souza vira uma forte luz atingir o bandido.
O raio havia lhe atingido.
***
As nuvens junto com a chuva se recolheram, para a lua cheia gordíssima poder reluzir. Souza despertou encharcado,sem entender bem o que acontecera.Ergueu-se.Um cheiro de carne esturricada pairava no ar.Procurou do pacote com o dinheiro o encontrando ao lado do bandido chamuscado.Estava morto.
Sorrira.
Se contasse a Sandra ela não iria acredita.
O Terceiro Raio: O Milagre.
-Mãe, quero morrer tomando banho de chuva. —disse Igor um garotinho de apenas oito anos,num estado terminal de tumor.
-Mas filho....— argumentara a mãe do menino.
-Eu quero mãe. Eu preciso. —respondeu ele resoluto.
Agata sabia que não resolveria em nada discutir com Igor. Conhecia bem o filho que tinha. E ela não queria desperdiçar os últimos minutos ao lado dele discutindo.
Se era aquilo que ele  queria, ela o realizaria.
***
Foram para cobertura do hospital. Agata segurava o corpo raquítico do filho com todo o medo do mundo de ele cair no chão e quebrar-se como se fosse feito de vidro. Ambos,em poucos minutos haviam se encharcado.
Igor era a mais pura euforia.A mais singela vontade de viver aquele momento onde a vida porejava por todos os lados.
Sorria.
***
Com Igor ainda em seu colo Agata o girava, girava e gira. Sabia que aquele momento único jamais se repetiria.O abraçou com todo  o seu amor de mãe : o amava mais do que tudo, o amava.
E sem que ambos percebessem,de repente, um raio coriscou o céu e em pouco tempo os atingiu..
***
-Mãe,mãe,mãe,mãe...—disse Igor sacolejando a mãe adormecida no chão. Havia parado de chover. O céu estava completamente aberto e azul ,sem a presença de uma nuvenzinha sequer.
Agata acordou com uma dor horrenda de cabeça: o que havia acontecido?
A resposta viera assim que depositara os olhos em seu filho : Igor estava em pé a sua frente. O menino fraco que antes não conseguia firmar o corpo nos pés,encontrava-se radiante  a sua frente.
-Mas...

-Foi a chuva mamãe,foi a chuva!



Se você ainda não leu o segundo conto dessa série, clique aqui!


terça-feira, 4 de novembro de 2014

Terror do Cotidiano 2 : Aranhas Humanas


raffael petter contos
Clique aqui para ser direcionado à notícia.

Desde que saímos daquela ilhota em Fernando de Noronha estou trancado aqui neste quarto caiado de hospital. E  ainda por cima ,não podia me mover: braços e pernas atados por cintos duros de couro a cama que estava deitado. Sentia-me preso num hospício. O pior de tudo é não conseguir lembrar como e o motivo de vir parar aqui. 
Só lembro que quando cheguei aqui era de manhã – sabia que era manhã, pois a luz do dia infiltrava a persiana entreaberta- e que fora despertado por um doutor de cara muito sinistra.
***
- Como você está se sentindo meu jovem?—perguntou um homem a minha frente de jaleco branco e que me perscrutando por detrás daqueles óculos redondos, de lentes fundo de garrafa.
-Bem... —tentei mentir, no entanto, os olhos do velho médico não me permitiam. —Acho...
-Sente alguma dor?—disse arregalando os olhos. —Seja sincero...
Relutei. Sabia que contando a verdade não sairia dali tão cedo. Mas a dor atrás da minha coluna perto das costelas era excruciante.
-Estou com uma dor na coluna...
- Normal. —falou como se a maldita dor que eu estava sentindo fosse algo banal como uma gripe. —É o efeito dos medicamentos.
-  O que eu tenho ? Doutor....—procurei pelo nome dele,no crachá espetado em seu jaleco: Elias.—Elias?
- Sim,Elias. É só uma virose muito violenta que você e sua amiga adquiriram por irem longe demais. Por irem, naquela parte de Noronha...
De repente, minha cabeça estala e meu coração incendeia: Clara também estava ali. Contudo, como ele sabia que tínhamos ido para aquela parte da ilha? E como fomos parar naquele hospital? E quanto tempo estávamos nele? E haveria alguém em nossa busca?
Antes que pudesse obter respostas para tais perguntas, um alarme ecoa.Uma sirene,semelhante a um grito desesperado de uma mãe que acaba de parir e descobre que seu filho está morto.
Elias correu para o telefone fixado na parede:
-O que está acontecendo? CO-MO AS-SIM E-LA FU-GIU?—perguntou oscilando o humor.A cara plácida de antes ,dera o lugar a máscara decomposta de raiva.
- O que foi Elias?—perguntei após desligar.
-Nada. Não se preocupe tudo ficará bem, meu jovem rapaz. –respondeu tocando em meu ombro com uma nervosa leveza. —Tudo ficará bem.
***
-Vamos, falta pouco. Olha o aviãozinho....—disse Camille numa voz infantil,tentando assim com que eu comesse aquela comida papa.—Ok,chega por hoje ,então.
-Então, o que acontecera hoje?
-Não, posso contar. —disse ela recolhendo a bandeja com sobras e colocando no carrinho de alumínio.
-Por favor,Camille—disse segurando seu punho. Camille arrepiou-se, estremecendo de desejo. Sempre durante as refeições ela desamarrava as minhas mãos para que pudesse tomar suco. Mas isso viera depois de muita persistência e calma. Tive de ir conquistando-a aos poucos.
-Você não confia em mim ? Hein? Não confia?—questionei puxando-a para mais perto de mim. Os olhos puxados dela se comprimiram. Arfava, excitada. Umedecia-se.  A beijo.
***
Noite. Lua cheia. Suava frio. Costas coçavam e doíam num ritmo alucinante, infernal. Pego do espeto que Camille usava em seus cabelos negros e desamarro meu tornozelos.
Pronto. Estava livre.
Dou uma verificada nos batimentos cardíacos de Camille adormecida no chão. Após beijá-la a sufocara por tempo apenas suficiente para desmaiá-la. Sem matá-la. Peguei-a e a amarrei na cama. Procurei pelas chaves no bolso de seu jaleco. Abro a porta. Saio.
***
Precisava encontrar Clara. Seria difícil, pois dos dois lados daquele extenso e interminável corredor, havia portas com quadradinhos. Com cuidado, vou olhando um a um.
De súbito,um grito de mulher.
A voz era de Clara.
***
Paro bem em frente ao quarto de onde viera o grito. Pego a chave de Camille e a enfio na fechadura. Era uma chave mestra. Abria qualquer porta,mas a única porta que queria abrir era aquela onde Clara estava.Giro a maçaneta e empurro a porta...
***
Fecho a porta atrás de mim.
Olho para o leito bagunçado: as amarras haviam sido rasgadas.
-Clara?É o...
Antes que terminasse de chamar por ela, a encontro trepada no teto do quarto. Aquela não era Clara. Aquilo que via não era humano. Era um hibrido entre  a espécie  humana e a animal.
 Uma aranha no caso,que se alimentava...Se alimentava do doutor Elias,que estava branco como papel...
 A criatura parecia não me notar. 
Contenho um grito de pavor. Aquela era Clara. Sim,era ela. Notara isso ao ver os fios de cabelo ruivos dela sacolejarem para lá e cá. Tombei de joelhos no chão. A dor me rasgava por inteiro agora... Minha cabeça fervia, parecia que ela a qualquer momento explodiria como se fosse uma melancia dentro de um micro-ondas. Meus punhos cerrados formavam nodoas no piso frio do quarto.  Minha pele começa a coçar: vou coçando-a,coçando-a,coçando-a numa tentativa falha de alivio.Coceira e dor: dor e coceira. Apenas duas palavras que me definiam naquela momento...
***
Estava no banheiro, de Clara. Havia deitado na banheira dela. O porre deve ter sido feio. Muito. Estava com uma dor de cabeça horrenda. Vou a pia: ligo a torneira,formo uma concha com as mãos e molho o rosto. O contato de minha pele na água fez com ela ardesse e formigasse. Olho-me no espelho.
Apalpo meu rosto.
Aquele não podia ser o meu rosto, não, não, não podia.
Grito.
Meu rosto se deformara. Transformara-se em algo horrendo. Inumano. No lugar de minha cabeça,jazia a cabeça de uma aranha: quelíceras no lugar da boca e nariz;e vários olhos pequenos ,vítreos e reluzentes como jabuticabas.

Soqueio o espelho, esmigalhando-o. Clara aproxima-se de mim. Também se transformara.Éramos aranhas humanas.

Se ainda não leu o primeiro conto dessa série é só clicar aqui.


sexta-feira, 1 de agosto de 2014

A Hora do Horror- Parte Segunda

raffael petter
Gritei, contudo, consegui abafar a tempo o som com as mãos. Precisava me controlar. Passo pelos cadáveres descabeçados. Pego do telefone e ponho-o no ouvido.
E nada. Apenas silêncio do outro lado. Ele deve ter cortado a linha...
Droga.
Me agacho perto dos corpos sem cabeça e procuro nos bolsos de seus jalecos brancos e em suas calças.Vou apalpando até que encontro um celular , no bolso de um deles.
Discava: 1...9....
Preparava-me para discar o 0 quando, passos pesados aproximaram-se.Os passos dele... Rapidamente me escondo na reentrância do balcão.
Podia senti-lo perto, a respiração pesada e insana pronta para atacar. Foi então, o celular que estava em minha mão decide tocar:
OOOOOOOLLLLLLLLLLLLLLLLÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉ!!!
O pior de tudo é que eu apertava os botões e nada de ele desligar. Só desligou quando o joguei na parede a minha frente, espatifando-o.
A respiração do assassino, de súbito, parou. Desaparecera como se ele tivesse evaporado no ar.
 Não, ele não tinha evaporado.
A prova viva disso era que o braço dele estava descendo pela reentrância do balcão como se fosse uma cobra caçando sua vitima. Aquele braço maligno procurava pelo dono do celular. E por pouco, ele não me pega, se eu não tivesse me espremido contra a parede do balcão, estaria morta...
Porém, o que o impediu de me capturar fora outra coisa.
-EI O QUE VOCÊ TÁ FAZENDO AÍ?—gritou uma voz masculina. O meu desejo foi o de gritar, porém me contive. Se aquele psicopata soubesse que eu estava ali, há poucos metros de distância dele, estaria ferrada.
Fiquei calada só ouvindo o que acontecia.
-EI, CARA O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO AÍ?—berrou novamente o homem.
Silêncio.
O psicopata não lhe respondia.
Passos pesados; o silêncio é quebrado.
 -PARE AÍ!PARE!!SE NÃO VOU ATIRAR...!!!—disse o homem que agora, eu sabia se tratar de um dos seguranças do hospital.
Os passos avançavam. Então, como havia prometido o guarda começa a atirar em direção do psicopata. Tive muita vontade gritar para ele que aquilo não funcionária, mas a vontade veio e passou, pois imediatamente meu extinto de sobrevivência agira dizendo para eu ficar de bico calado.
Os tiros atingiam em cheio a parede branca do hospital fazendo com que pedaços de reboco caíssem. De repente, os tiros cessaram. A munição da arma deveria ter acabado. Aquele ser do inferno não podia ser morto tão facilmente.
Ele era inexorável.
 Gatinhei um pouco para fora do balcão, virei no corredor mais próximo, mas não sem antes de vê-lo, o psicopata, erguer o guarda com apenas uma mão.
 Asfixiava-o.
Pude ainda ouvi-lo soltar grunhidos agonizantes, grunhidos de quem ia perdendo aos poucos a vida. Aquele monstro parecia uma criança amassando nas mãos uma indefesa borboleta.
Respirei fundo, fechei os olhos, retomei o fôlego e corri.
Tinha que encontrar alguém!Ele não poderia ter matado todos.
Vou passando por um corredor de portas amarelas quais pertenciam aos quartos dos pacientes. Cada qual possuía uma plaquinha retangular com determinada numeração.
Vou abrindo uma a uma.
Encontrava apenas leitos vazios sob a meia luz da lua que escorria pelas persianas. E mais nada. Nenhum sinal de pacientes.
Continuei a caminhar pelo longo corredor.
Para onde haviam ido os pacientes daquele hospital?
Ele teria os matado?
De repente, um frio correu toda a minha espinha. Aquilo não era um bom sinal.
Não isso seria humanamente impossível...
Mas ele não era humano...
Estava no final do corredor e faltava só mais uma porta para eu checar. Puxei a maçaneta da porta e dessa vez encontrei alguém em seu leito.
Entro no quarto e vou à direção do volume que se formava na cama.
--Alguém aí?—perguntei me aproximando da massa volumosa.
Sem resposta.
Um cadáver?

Antes que eu pudesse saber do que se tratava, sou atingida na cabeça por algo que me apaga imediatamente.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

A Hora do Horror - Parte Primeira

raffael petter blog máscaras realistas de corujas
-Lamento... — foram as palavras da médica após anunciar que meus pais estavam mortos.
A partir daí, emoções em cascata me afetaram. Comecei a rir e depois a chorar. Não conseguia acreditar, mas logo que os segundos foram escoando dei de cara com o muro chamado realidade.
Sim, eles estavam mortos e eu sabia tão bem quanto a médica o que os matara.
Desabei no chão. Lágrimas quentes cortaram meu rosto gelado.
 Um enfermeiro de uniforme azul veio me amparar pondo-me sentada naquela cadeira desconfortável feita de plástico de hospital.
-Quer alguma coisa?-perguntou-me ele.
-Não- menti com a voz embargada.
Sim, queria.
Queria meu pai e minha mãe de volta, vivos....
***
 Aos poucos, o movimento do hospital foi se desacelerando. Enquanto, sentia o gosto salino das lágrimas deslizarem pelos meus lábios, vi pessoas sob macas sendo carregadas por enfermeiros apressados em salvar suas vidas.
Minutos antes, acompanhara meus pais... Segurava as mãos de ambos, quando partiram para sala de cirurgia. Tentei segui-los, porém a mesma médica que me dera noticia de sua morte havia me barrado...
Acho que estava desidratada, pois minha boca estava seca. Levanto e sigo em direção ao bebedouro que ficava num corredor antes da sala de cirurgia.
Havia pegado no sono? O hospital estava silencioso, vazio...
Algumas luzes haviam se pagado. Deixaram poucas acesas, talvez, por motivo de economia.
 Vou ao bebedouro, pego dum copo de plástico e o encho até o borco. Bebo toda a água de uma única vez.
Volto pro meu lugar, encostando dessa vez a cabeça na parede branca e fico a pensar no que faria de minha vida, uma vez órfã... Como seria daqui pra frente no dias dos pais e das mães?Sem ter alguém de confiança e de que você ame para desabafar coisas que nunca diria a outra pessoa.
Suspirei e deixei lágrimas rolarem.
Se não tivéssemos ficado naquela casa maldita...
Olhei para o curativo em formato de quadrado em meu braço direito. Sabia que depois de retirá-lo a cicatriz apareceria, ficando ali sob minha pele como uma tatuagem indesejável.
Se eu tivesse sido mais rápida, mais esperta, talvez ainda eles estivessem vivos, mas ele era muito forte...
Não sei ainda como consegui matá-lo.
Evitava fechar os olhos, pois  o veria em minha frente. Era o tipo de imagem que se poderia chamar de indelével, inapagável.
De repente, me bateu a vontade fazer xixi. O corpo, enfim, havia se lembrando de que tinha bexiga e que agora não mais corria perigo.
***
Vou andando pelos corredores caiados e insípidos daquele hospital em busca de alguém, que pudesse me indicar o banheiro, porém não encontro ninguém que pudesse me ajudar.
Tive de encontrá-lo por si só. Ficava na ala norte do hospital (isso se meu instinto de direção estivesse correto). Antes de sair do banheiro dou uma mirada no espelho dele para ver em que estado me encontrava.
Pior impossível.
Meus cabelos curtos e pretos haviam perdido o brilho. Meu rosto parecia um pouco mais magro quase cadavérico com alguns lanhos na parte superior e inferior das bochechas, meus olhos estavam inchados de tanto chorar e de ficar acordada por tanto tempo.
Em suma, estava um caco.
Preparava-me para deixar o banheiro, quando ouço um grito gutural de mulher. Próximo.
No mesmo instante o meu coração começou a pulsar enlouquecidamente. Seria possível?
Não, não seria.
Eu o havia visto morrer!Devo ter ouvido demais...
Giro a maçaneta e ouço o mesmo grito só que dessa vez um pouco mais baixo só que com a mesma dor plangente na voz do que o outro.
Não... Aquele desgraçado não poderia ter sobrevivido, não mesmo!
Seguro a maçaneta com a mão direita esperando por outro grito. Esperei por uns minutos, só que ele não viera.
Invés de gritos ouço, uma voz de mulher desesperada, já avizinhado a porta.
-Por favor, não me mate!!!—implorava ela. — SOCORRRO!!!
A voz toda dela estava desfeita em dor e agonia.
Era ele...
Mas como...
A maçaneta, de súbito começa girar. Largo ela imediatamente e me escondo atrás da porta. Prendo minha respiração e tento abafar de alguma forma como se ele pudesse ouvi-lo, meu coração.
E num rompante, ele entra segurando pelos cabelos loiros uma enfermeira que se sacudia como um gato preso num saco, numa inútil tentativa de fuga.
Então, ele havia sobrevivido...
Ponho minhas mãos na boca para silenciar o grito que dela queria sair. Um grito de ódio e medo.
Precisava sair dali e procurar por ajuda o quanto antes. Antes que ele...
E antes que eu pudesse sair do banheiro presencio uma atrocidade: ele a ergue com apenas uma das mãos e começa bater a cabeça dela no espelho do banheiro...
Ela gritava; ele batia. Ela gritava; ele batia. Ela gritava; ele batia...
Os gritos de dor que ela soltava eram impossíveis de se descrever. Meu estômago embrulhou e por pouco não vomitei. Contudo, me segurei. Aproveitei o barulho dos cacos de vidros se partindo sobre a pia e no chão para fugir.
Meus passos ecoavam pelo corredor, numa corrida desesperada pela vida.
Vou à recepção do hospital e dou de cara com uma das cenas mais chocantes da minha vida: corpos sem cabeça; corpos sem cabeça afogados em poças de sangue. Jaziam no chão, perto do telefone...


quinta-feira, 2 de maio de 2013

CRÔNICAS DE UM VAMPIRO — PRÓLOGO

 

cronicas de um vampiro



 
O Último Encontro

 
Podia vê-la caminhando até mim com aqueles olhos grandes e castanhos, normais; porém, sedutores.
Trazia nos lábios vermelhos e saborosos um sorriso malicioso que nunca a tinha visto usar desde que eu a conhecera...
—Você não estava proibida de sair de casa? — digo enlaçando-a, logo após, em meus braços num forte aperto para depois beijar-lhe os lábios desdenhosos.
Havia algo de estranho...
Quando meus lábios tocaram o dela era como se eu estivesse beijando uma estátua fria e insensível. Uma bela estátua; mas, ainda assim uma estátua.
Paro de beijá-la imediatamente.
— O que é que você tem? — pergunto segurando-a pelos ombros — Você parece estranha...
— Sério? —disse ela sem se preocupar em esconder o tom de desdém que normalmente ela não usava— Normal...
— Tem certeza?
— Total...
Olhando bem para ela algo havia mudado. Não somente em seus atos. O visual que agora ela adotara estava diferente. Não era a Eva que eu me apaixonara.
Quero dizer... Sim, era ela; porém, ao mesmo tempo não o era.
O cabelo que normalmente ela deixava solto, caindo sobre o busto pálido como a lua, estava preso num rabo de cavalo muito bem amarrado, emprestando-lhe ao rosto redondo e alegre um tom sóbrio, rígido. As sombracelhas finas e delgadas entregavam a malícia existente que haviam possuído aqueles olhos...
— Gael posso perguntar uma coisa? —diz ela dobrando o pescoço como um passarinho curioso. — Como se mata um vampiro?
— Por que a pergunta? — rebato encarando-a.
Havia alguma coisa naquela situação toda que me fazia suspeitar, algo falso que ainda não tinha percebido...
—Ah... é que...é que... — tenta explicar virando o rosto para direita, na direção da lua nova. Apesar das mudanças ela continuava tão linda...
—Se eu contar você promete não me matar quando formos morar juntos? —brinco com uma piadinha um tanto infame. Ela sequer se dera ao trabalho de rir. —O único meio de me matar, seria através duma estaca de madeira, qual deveria ser fincada em meu peito; no coração...
Ela piscou os grandes olhos e convidou numa voz suave:
—Me beije...
E sem pensar duas vezes a beijo vorazmente. Nossas buscam umas as outras, buscando sensações nunca experimentadas antes.
Tive que conter meu instinto brutal e animalesco que queria crivar o dente naquele pescoço cheiroso...
O mundo não nos era mais importante. Éramos um só.
Bom. Pensava assim até que algo afundou em meu peito provocando uma dor aguda insuportável. Algo havia atravessado a pele sob meu peito, perfurando-o, indo em direção ao coração.
De repente, o ar me faltara.
Minha vista começou a embaralhar; via a minha frente uma duplicata de Eva.
O pior de tudo era que eu não conseguia acredita. Aquilo não era possível! Outra pessoa, só poderia ter sido!
Não ela; não ela!
— Por quê? —perguntei me dobrando de joelhos— Por que você fez isso?
— Gael, querido não te amo mais... — disse ela explodindo em risadas e afundando a estaca ainda mais em meu peito.
Dor da estaca dilacerando minhas entranhas uniu-se ao meu coração quebrado...
Aquela não poderia ser Eva...
Não podia...
Não acreditava...
Isso fora confirmado, momentos antes de eu cair de borco no chão.
Havia um colar que ela trazia no pescoço qual eu não notara antes...
Antes que eu pudesse reagir, minhas vistas foram se apagando como num teatro no final de um espetáculo quando se apagam as luzes, deixando os aplausos da plateia no escuro...
No meu caso não existiam aplausos...
 
CONTINUA

sexta-feira, 15 de março de 2013

O Lago Amaldiçoado



—Onde estamos Bilie? —pergunto ao meu namorado.
—Só mais um pouquinho querida... Só mais um pouquinho... —responde ele.
Ah tá!
Como assim mais um pouquinho?
Eu estava morta de curiosidade. A vontade que eu tinha era a de arrancar a venda negra que me cobria os olhos e descobrir em que meu maravilhoso namorado estava me levando.
Tento desvendar o lugar em que estávamos por meio de meus outros sentidos. Contudo, não consigo descobrir nada.
—Cuidado com o degrau querida... —avisa Bilie, me segurando com mais força, num visível sinal de cuidado. Em todo o momento ele me guiara.
Guiara-me até aquele ponto.
Em principio, no carro, manteve-se, misterioso, dizendo que o lugar onde estava me levando, eu iria gostar muito. E já fora do carro — e muito bem vendada — meu futuro marido começa a me conduzir;
No decorrer do caminho, tropiquei várias vezes em pedras e buracos, que se tornaram pra mim como que invisíveis. Quando tal acontecia, eu lhe dava um tapa no ombro e um belo dum belisco no braço.
Ninguém manda me por em roubadas.
Obedeço.
Tomo cuidado com o degrau.
Em pé numa superfície, que para mim, desprovida de visão, não passava de algo flutuante e feito de madeira, eu tentava me equilibrar.
—Onde estamos Bilie? —pergunto novamente, tentando encontrar um ponto de equilíbrio com o salto agulha que estava usando.
—Só mais uns minutinhos... Agora se sente, por favor  —disse ele fazendo com que me senta-se no banco de madeira.
Aquilo já estava me irritando.
Começo a contar, ovelhas mentalmente... Era um exercício pratico que a professora de Ioga ensinara. A cada carneirinho contado tinha de se expirar...
Aquilo em que estava sentada, com certeza, tratava-se dum barco. Isso foi confirmado assim que Bilie começar a produzir um som de movimento na água, isto é, ele devia estar remando deslocando o barco do píer.
Estaco imediatamente a contagem dos carneirinhos.
 Não, aquilo não podia ser verdade!
—SE EU ME MOLHAR EU-TE-MATO! —berro.
—Não se preocupe... Já chegamos.
Bom para você, digo para mim mesma.
                                ***
Bilie põe-se safadamente atrás de mim, fazendo com eu pudesse sentir sua respiração ofegante tocando minha nuca.
—Preparada? —sussurra em meu ouvido.
Sorrio e aceno.
E então me liberta daquela cegueira momentânea.
De inicio os meus olhos ficaram atônitos, com a forte claridade que provinham do ambiente. Eles demoraram um pouco a se habituar a luminosidade amena do lugar.
Fiquei piscando o olho feito uma boneca assassina enlouquecida durante muitos segundos.
—Que lugar é esse, Bilie? —pergunto pela terceira vez.
—Adivinha? —provoca ele, levantando a sua grossa sobrancelha esquerda o que lhe acentuava ainda mais, o ar irônico, que tinha estampado no rosto. Bilie era moreno com olhos castanhos claros, beirando um tom de mel e um cavanhaque cujo lhe contornava o belo rosto quadrado e aristocrático.
Procuro com olhos, me lembrar do lugar onde estávamos... Bem estávamos no que parecia ser um lago, cujo era ladeado por m bosque verdejante e denso.
Nesse instante, um negro corvo cortava o céu azul com um crocitar alto e macabro... Aquilo não era um bom presságio...
Olho bem para cara dele e digo:
—Estamos num lago?
—Bingo!Ponto! —responde ele com ar zombeteiro.
Detestava aquele tom que ele usava.
—Que lago é esse em que estamos? —pergunto, pois em Peba City existia, pelo menos, uns quarenta e cinco lagos registrados. Inclusive, a casa onde eu morava havia um lago. Meu pai havia comprado o terreno juntamente com ele. Tinha pagado uma verdadeira fortuna pela propriedade.
Mas como aquele não era a minha casa e nem meu lago...
—Que lago é esse Bilie?
—Vamos, Patricia! Adivinhe!Você está se saindo tão bem...! —diz acidamente irônico.
Aquilo definitivamente me deixa maluca de raiva. O modo como ele falava... O tom excessivamente lacônico da sua voz linda me deixava totalmente exasperada e ao mesmo tempo apaixonada.
Acho que quando o conheci eu fui flechada com o complexo do cafajeste.
Isso não tinha duvidas. Só isso poderia explicar os dois anos de namoro que vínhamos construindo.
Vendo que eu estava de cara emburrada com aquela resposta que havia recebido meu namorado anuncia:
—Estamos no velho Lago Negro...
—Oi? —pergunto rapidamente como se não houvesse entendido direito as palavras que acabara de ouvir. De chofre, um repentino arrepio serpenteia toda a minha coluna. Meus pelos estavam todos em pé.
Aquilo não poderia ser verdade. Não mesmo...!
—Estamos no velho Lago negro... —repete tentando imitar horrivelmente a voz duns daqueles antigos locutores de radio novelas.  
Não acreditava.
Simplesmente não podia acreditar.
—Bilie, fala sério cara!Onde estamos? — pergunto novamente, só que desta vez, beirando a histeria. Aquelas brincadeiras infantis já estavam começando a me irritar.
O encaro.
Aquilo não tinha e não podia ser verdade.
Bilie me dá um sorriso sacana.
—É sério Patricia, aqui é o Lago Negro, olhe a água... —diz apontando com o remo de madeira para a água negra e turva, cuja qual, não parecia mais ter vida. Aquela água escura sem brilho parecia não ter mais vida alguma, peixes deviam ter deixado de existir ali, há muito tempo.
—Mas isso é impossível — contesto incrédula num tênue fio de voz — o Lago negro havia sido fechado há muito tempo...
—Ah, isso é do passado... O lago já está livre do ácido...
—Mesmo assim... eu não gosto deste lugar...Ele imana uma vibe sinistra... —digo massageando os braços, tentando aquecê-los dum súbito calafrio.
—Para de ser boba esse lugar está seguro— disse Bilie erguendo-se do banco onde estava sentado, com os braços estendidos para o seu feito uma réplica do Cristo Redentor.
 —Boba nada, esse lugar tem uma energia ruim... Eu sinto... E você sabe muito bem porque estou falando isso...
—Sei muito bem do que você está falando... E isso é culpa daqueles livros esotéricos do Paulo Coelho que tanto você lê... —retruca atrevidamente.
Aquilo não tinha nada a haver.
Aquele lago negro transpirava tristeza. Também não era para menos, o que acontecera naquele dia...
Há uns vinte e cinco anos atrás, numa tarde calorenta de setembro, banhistas preparavam-se para a grande gincana de natação que haveria naquele lago. Lago que antes era verde e cristalino, qual na época se chamava Lago da Euforia.
Todos irradiavam alegria.
Sobretudo, os jovens e crianças que haviam treinado o ano todo para a grande apresentação daquele dia.
O que havia acontecido no lago iria se se tornar uma verdadeira lenda, qual se imortalizaria, no balcão dos bares, nas mesas dos restaurantes e ao redor das fogueiras de acampamentos. Logo o fato tornara-se a lenda mais recontada pelos habitantes de Peba City, aos turistas que aqui chegassem.
Todavia, todos os que a ouviam pela primeira vez ficavam chocados.
Também, não era para menos...
Os nadadores tinham que chegar ao meio do lago e depois retornarem imediatamente a margem deste.
Os três primeiros que chegassem, seriam considerados vencedores e com isso ganhariam uma pequena soma em dinheiro.
Tão logo os participantes estavam posicionados. Dão a alargada com o som sonoro duma buzina. Ambos disparam feitos golfinhos sob a água verde oliva.
Os pais, tios e parentes torciam energicamente, vibravam da margem empunhando cartolinas com nomes dos nadadores. Esgoelavam-se, incitando os participantes a avançarem cada vez mais.
Em dado momento, várias crianças chegaram juntas a metade do lago. Obviamente, que o tempo de chegada entre elas variava. Passaram-se, alguns minutos até que todos os participantes estivessem chegados ao mesmo ponto.
E foi então que uma cena chocante passou-se a se desenrolar diante dos olhos daqueles pais que nunca mais conseguiriam esquecê-la.
De súbito, as crianças e os adolescentes começam a gritar. Bradavam por ajuda. Gritava em desespero, que seus corpos queimavam e que não conseguiam mais sentir os pés...
As pessoas rapidamente se comoveram. Pais, parentes ou até mesmo amigos, em estado de angústia, pulavam dentro de botes verde-limão para socorrer as vitimas que berravam por socorro.
Porém, antes que estes chegassem ao ponto do fatídico acontecimento, o barco destes começa a derreter.
Seria aquilo o que eles estavam pensando?
—Corra, isso daqui é ácido! —anunciara alguém de seu bote. O que fez com que todos os ocupantes dos outros botes pulassem e começassem a nadar em direção da margem do lago.
Não podiam fazer completamente nada a não ser assistir. Aliás, a única coisa que eles podiam fazer era assistir a seus filhos derreterem na água, sentir o cheiro de carne apodrecida cozinhando no ar e chorarem pela perda. Muitas mães, avós e namoradas choravam escandalizadas.
O lago fora interditado. Fora chamada a policia e a pericia constatara que o que causara aquele terrível acidente foi uma grande concentração de ácido sulfúrico na água.
Imediatamente as pessoas se perguntaram como aquilo veio acontecer. Alguns se passaram meses, mas sem que os corações daqueles que perderam alguém pro lago houvessem se esquecido do fato.
Queriam uma resposta, mais que tudo queriam um culpado. Então, logo se descobriu o culpado.
Gilbert Chemical, um grande empresário, dono duma empresa química que produzia medicamentos para aquela pequena cidade, confessara que havia sido um de seus funcionários que havia despejados tonéis de ácido na água.
Só que o funcionário acusado de fazer tal ato revela que o havia a mandato de Gilbert Chemical, que fora temporariamente preso e depois liberto.
Os familiares sabendo de sua saída uniram-se para depredar a empresa de Gilbert, fazendo com que ele e sua mulher saíssem da cidade.
Essa história havia sido contada tantas vezes que eu a decorara.
Aquele acidente era algo inacreditável.Como era inacreditável eu estar ali.
—Não acredito que você me trouxe aqui!Você só pode estar bêbado!
—Hei gata vai com calma... Não tem perigo algum... Não tem, mas perigo já disse...
O que ele havia dito era verdade. Porém, aquele lugar continuava fechado.
E algo me dizia que eu não deveria estar ali, podia sentir que algo muito esquisito estava prestes a acontecer.
—Vamos embora? —digo.
—Por quê? —pergunta ele com um sorrisinho no rosto.
—Porque sim! —respondo.
—Ah, não vai me dizer que você está com medo por causa daquela lenda...
—Não, é que eu não gosto desse lugar, Bilie. —disse olhando em minha volta. —Ele é muito morto, muito triste...
—Tá. Vamos sair daqui, mas antes preciso te dar uma coisa... —diz ele mexendo no bolso interno de sua jaqueta jeans azul.
—O que é? —pergunto curiosa.
—Isso daqui... —diz ele estendendo uma caixinha quadrada de veludo preto.
Pego a caixinha.
Seria o que estava pensando?
Não podia ser...
Abro caixa.
—Você aceita a se casar comigo Patricia Batista Oliveira? —diz meu futuro marido, em tom solene, quando abri a caixinha de veludo.
Ah, que lindo!
Então tudo aquilo fora uma desculpa — mesmo sendo péssima — para me pedir em casamento. Ponho o anel no dedo: um anel de ouro branco com uma pedra vermelha, que se não estivesse enganada era um rubi.
—O que você me diz? —pergunta ele começando a ficar preocupado. Olhava para mim como uma criança e gulosa que visse a mãe com um pedaço grande de bolo de chocolate.
—Aceito— sussurro.
—O que você disse? —pergunta como se não tivesse escutado.
Então repito:
—Eu disse que aceito!
Bilie dá um grito e num pulo joga-se em mim ,estalando em minha boca um beijo saboroso e demorado.
Depois de nos desgrudarmos pergunto:
—Agora podermos ir embora?
—Podemos—responde ele pegando nos remos.
O sol começava a se derreter no horizonte, deixando lanhos rosa no céu que começa escurecer. Um vento frio e cortante cortava o lago, trazendo consigo o crocitar distante e agourento de algum corvo. De imediato, meu corpo começou a sofrer uma onda de arrepios.
Bilie tira a blusa dele e a dá para mim.
Visto-a.
 Contudo o frio que sentia não passou. Aquela frialdade parecia atravessar por entre minha alma.
Começo a tiritar.
Olho a mina volta.
Parecia que estávamos no mesmo lugar.
Não que conseguisse ver muita coisa, pois uma densa neblina havia tomado de conta de todo o lugar.
—Bilie estamos perto?
—Acho que sim querida... —diz numa voz que demonstrava o quão estava cansado. —Há, algo de errado... Deve de ter alguma coisa prendendo os remos, pois eu remo, remo e nada de sair do lugar!
Viro-me e olho na direção da água perto dos remos imersos, para ver se encontrava o que estava prendia os remos.
—Não há nada aparente, não... —respondo.
Ele tenta mexer os remos que minutos antes se moviam — mesmo que vagarosamente.
Nada.
Era como se algo os segurasse.
—Vou ter que pular pra ver o que é amor... Senão vamos ficar aqui a tarde toda.
—Tem certeza que você quer fazer isso? —pergunto pesarosa.
—É o único jeito... Agora tome meu lugar, porque os remos podem cair...
Juntos levantamos. Ele me dá um selinho e depois salta para a água negra. Prontamente assumo ao seu lugar nos remos.
A tarde finalmente cedera, o lugar à noite. O céu estava sem estrelas, porém uma linda e rechonchuda lua resplandecia lá em cima. A lua cheia estava tão grande que iluminava todo o barco com sua luz prateada. Era como se ela fosse um farol gigantesco e natural.
Fazia dois minutos que Bilie havia pulado dentro daquela água negra e fria. Ficava preocupadíssima a cada segundo que passava.
Quando ia gritar ele submerge da água. Sem pensar puxo-o para dentro do barco.
Ofegava ruidosamente.
—Conseguiu descobrir o que era...?
—Não... Mas vi uns vultos na água... Pareciam-me ser peixes.
—Impossível... Os poucos peixes que havia no lago desapareceram—digo.
Por um breve momento ficamos nos encarando, procurando, nos olhos de cada um uma resposta plausível para aquele mistério.
—Então, tá... Vamos tentar de novo... —diz assumindo seu lugar de remador.
Mas não adianta. Bilie remava, remava e nada acontecia. Boiávamos no lago sem nos movermos.
—Não seria melhor ligarmos para alguém? —pergunta ele.
—Você está com o seu celular? —perguntei.
—Não... E você?
—Também, não — aceno negativamente.
Literalmente, estávamos ferrados. Nossos celulares deviam estar no carro.
—Então o único jeito será nós irmos nadando até a margem do lago... —sugere, batendo os dentes de frio.
Olho acima do ombro de Bilie que sentado a minha frente estava e procuro pela orla do lago.
Nada além de uma densa nevoa.
O que fazer...?O único mesmo seria ir nadando.
Neste meio tempo em que preparávamos para mergulhar, algo bate fortemente contra o casco do barco. Se não tivéssemos nos segurado teríamos caído no lago.
—O que foi isso? —sussurro pro meu namorado, que a esta altura empunhava um dos remos, deixando que o outro afundasse na água.
—Não sei... —responde no mesmo tom.
Podia ouvir o meu e o coração dele saltarem assustadoramente no peito. O suor escorrendo em gotas grossas encharcando a camiseta e os nossos lábios dementes tremelicando sob o efeito cruel do frio que parecia estar a zero grau.
Nem meia hora havia se passado, quando num rompante algo tromba no casco do barco.
Levanto-me. Ficando ao lado de Bilie. Encosto minha cabeça em seu forte peitoral e molhado.
O que seria aquilo? Alguma espécie de animal faminto?
Não tínhamos como saber até que mais uma vez o casco do barco sofre outro encontrão. O intervalo entre as batidas ia diminuindo rapidamente.
O que é que fosse aquilo, estava planejando avariar o barco, causando-lhe um furo, por qual este afundaria aos poucos. Ou ele queria que entrássemos em desespero e pulássemos logo dentro da água?
Estava confusa e com muito medo.
—O que vamos fazer? — questiono aflita.
—Esperar... O casco deste barco é reforçado em aço... Ele é muito resistente...
Queria saber até quando ele resistiria...
                                 ***
De chofre, silêncio.
Silêncio.
O mais puro e angustiante silêncio. O tipo de silêncio que precede uma ação final.
Fatal.
Em meio, o silêncio, penso estar afogada num pesadelo, um pesadelo real e desesperador, qual não houvesse o alarme do meu celular para me fazer despertar.
Um som. Um grunhido, que desfaz a redoma de silêncio que havia se criado. Súbito minha pele úmida se eriça.
Depois, viera o cheiro, aquele cheiro esquisito de carne podre se decompondo ao sol entrando em minhas narinas e revirando meu estomago do avesso como se estivesse dentro duma máquina de lavar.
—O que é isso? —sussurro ao ver aparecerem sob a borda do barco quatro dedos amarronzados. Bilie olha pra mim e pro remo que segurava. E no mesmo instante entendo o que faria.
Ele aproximou-se dos dedos e num único golpe os decepou, fazendo com que uma coisa guinchasse de dor.
Silêncio outra vez.
Nossos corações palpitavam, nossos pulmões inflavam descompassadamente, num ritmo frenético. Não havia como fugir daquilo.
Viro meu rosto na direção do de Bilie murmuro:
—Eu te amo...
—Eu também... —responde ele.
E no instante seguinte o barco começa a ser chacoalhado, como se fosse uma lata de sardinha no oceano. Por fim, o barco acabou virando, jogando-nos na água.
                                ***
—Bilie??Onde está você? —berro tentando-o procurá-lo naquela nevoa desgraçada. Arfava, pois meus pulmões pareciam ter encolhido.
—Patríciaaaa!!!!!
Sim, aquela era voz dele. Tento nadar na direção dela.
—Onde você está? —vou gritando à medida que vou retomando o fôlego para continuar a nadar. No entanto, se pudesse ver as estrelas, ou a lua pelo menos, para tentar me orientar.
Nada. Nenhum sinal da voz daquele que deveria ser meu marido.
—BILLIEEEEEEEEEEEEEEEEEE, ONDE ESTÁ VOCÊÊÊ?? —grito fazendo com minha voz ecoasse. Começo a chorar.
Por quê? Por quê?
Não tive tempo de obter respostas. Sou puxada por mãos esqueléticas como algemas para o fundo da água. Debatia-me inutilmente na água, numa tentativa falha de tentar ser libertada. As mãos me puxavam cada vez mais para as profundezas do lago...
O meu oxigênio esvaia em bolhas do meu pulmão... Não conseguia respirar direito... Viro-me para ver quem me puxava...
E minha boca em formato de um O abre-se, horrorizada com que via...
Não, o que era aquela coisa?
Não, não, não...
Não havia mais ar meus pulmões. Minhas pálpebras como velhas cortinas encerram-se pesadamente sob meus olhos...
Não vejo mais nada...
                                ***
Acordo com a luz do dia afogueando meu rosto. Apesar de sentir meu corpo totalmente molhado. Que estranho, parecia que eu havia tido um pesadelo...
Olho a paisagem a minha frente.
O lago. Um barco virado de borco.
E começo a sufocar. Não. Não. Aquilo não podia ser... Aquilo não... Começo a ter um acesso de tosse. Lágrimas grossas e salgadas escorriam pelas maçãs do rosto indo parar em meus lábios.
Não podia. Acreditar. Naquilo.
Billie estava morto...
                                   ***
Andava desolada pelas margens do lago em busca do corpo de Billie...
O anel que ele me dera cintilava em meu dedo. Mas havia outra coisa em meu campo de visão que brilhava.
Corro até o objeto que jogado na terra úmida e escorregadia.
O pego.
Era uma carteira de identidade. Que tinha o seguinte nome:
Norton Billie Chemical.
 
Um grito fica preso em minha garganta.