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segunda-feira, 27 de abril de 2020

Digital Influenza


As redes sociais são plataformas que alavancam personalidades que nunca ouvimos falar, lançando-as ao estrelato. Alguns têm sucesso passageiro: duram quinze minutos, outros um reles story. Mas há outros que ampliam os seus quinze minutos de fama de tal modo  que conseguem atrair consigo uma horda de fãs e curiosos. Avolumando e perdurando assim  tal status.
De um instante para o outro a vida da pessoa se torna interessante. Vamos consumindo cada passo seu, cada suspiro. E da noite para o dia, de um story para outro, sem que percebamos,   almejamos a vida dela.
A pessoa transforma-se em influencer. 
Mas por que isso acontece?Por que desejamos ter a vida dela? Ser como ela? Ter algo que ela tenha?
Isso acontece, oras, porque preferimos consumir,muitas das vezes, a vida de alguém que viaja quase todo mês para algum país da Europa, come nos restaurantes mais caros ou frequenta as melhores baladas do Brasil do que a vida de um trabalhador que vive com seu cachorro numa fazenda no interior do sertão por exemplo. Não que  a vida do trabalhador que vive com o seu cachorrinho seja menos interessante. Ambos o são. Mas é tudo questão de ótica. Identifico-me com o que eu quero ou desejo. E muitas vezes (quase sempre) o que desejo não condiz com o meu estrato social. E por conta disso o meu desejo só faz aumentar. É aberto o apetite. O apetite pelo que não tenho.
O problema não reside em ser influenciado ou consumir algo oferecido pelo influencer.
O grande problema está em quem influencia e como ele o faz. Além de ter milhões de seguidores e possuir engajamento, o influencer tem uma obrigação que poucos se lembram de ter, que é a responsabilidade com os seus seguidores.
Isto é, você postar stories fazendo festa com os seus amigos para os seus milhões de seguidores em plena pandemia de Corona é de uma irresponsabilidade tremenda. Irresponsabilidade e falta de sensibilidade.
Gabriela Pugliesi na noite de sábado (25/04/2020) dera uma festa em seu apartamento. Uma festa com meia dúzia de amigas. Uma festa com amigas em pleno Corona. Repito novamente para não restar dúvidas: Gabriela Pugliesi dera uma festa em sua casa com meia dúzia de amigas em pleno Corona.
Ela uma digital influencer com quase cinco milhões de seguidores na sua conta, dera uma festa desrespeitando as normas de prevenção que foram decretadas: pessoas têm de ficar de distanciamento social e só sair de casa para fazer as coisas mais básicas e necessárias. O que significa: nada de festa com meia dúzia de amigas. É inconcebível, desumano. Não pode.
O mais engraçado de tudo é que a própria contraíra anteriormente o vírus durante a festa de casamento da irmã. A própria. E poderia ter aprendido algo com o acontecido. Poderia. Aprendera? Não, não aprendera.
Porque ela não aprendera? Porque ela vive numa bolha gigantesca. Como muitos que vejo por aí, que literalmente cagam e andam para o com o outro. Zero de empatia com o próximo. Zero. O único zero que importa para eles, é o zero dos milhões que compõem os seus seguidores.
Isso que a Pugliesi fizera, fora um ato horrendo, estúpido. Um atentado a vida. Uma falta de empatia com as pessoas que estão na linha de frente lutando contra esse vírus maldito e contra àqueles que agonizam pelo mesmo ou até mesmo pelos os que já se foram. É como se ela desse a mínima. Logo ela toda budista, toda zen.Toda digital influencer fitness que sempre prezou a saúde acima de tudo...
De digital influencer fitness,ela Gabriela Pugliesi, passara a digital influenza.
                                        

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Ensaios Sobre a Quarentena ou Quase Isso...

Acordar e estar feliz por ter acordado. Apalpar-se logo em seguida e sentir que ainda escorre vida(a seiva) pelo corpo, que ainda sente as coisas através de todos os seus sentidos(as raízes).Sim, ainda vive. Ainda sente. Sim,ainda respira. Respira tranquilamente. Nunca dera tanto valor ao ato de respirar como agora.Inundar os pulmões de ar e depois expeli-lo.Tragar e expelir, tragar e expelir, tragar e expelir. O exercício, a confirmação de uma existência.Respiro,logo vivo.
Nunca havia parado para pensar na delicadeza do existir. Essa coisa preciosa e fragilíssima como um cristal que num descuido pode espatifar-se completamente e ruindo-se em sua insignificância.Pois sejamos sinceros : a nossa existência é insignificante se comparado ao gigantismo do universo.Somos o  micro no meio do macro.E apesar dessa insignificância frágil,pulsamos. Evitamos morrer ,porque morrer é a ausência. A ausência do sentir, a ausência do amar, a ausência de apenas deixar-se estar e ser. A morte é isso  a ausência. O ponto final de uma frase que pode ser tão longa quanto curta. O último capítulo de um grande romance como Guerra e Paz ou um livro de um único capítulo apenas. Viver é isso : um sopro.A brevidade.É o vento ligeiro que desfolha as árvores no outono e a brisa   que acaricia as pétalas viçosas das flores na primavera.
***
Esse texto só foi possível de ser escrito ,porque desacelerei e o mundo ao meu redor também. A engrenagem sofrera perda de velocidade. Não que tenhamos entrado numa espécie de slow motion, não ,isso não seria possível. O capitalismo não permitiria . Para ele os corpos existem com o único objetivo : servir e consumir ,isto é,alimentar a  essa engrenagem assassina que destituí corpos de suas almas(sonhos e desejos) e se utiliza da energia de seus corpos até que estes sucumbam. A existência humana não foi feita para a escravidão. Sei que parece utópico o que direi aqui ,mas os seres humanos foram feitos para perseguir os seus sonhos ,gastar seu breve tempo e energia para conquistar o que anseiam. Pois sem os  sonhos nos tornamos coisas: frias, metálicas e descartáveis.
Ou seja, quando desaceleramos mesmo que por poucos segundos, percebemos o quão  estamos sendo  tragados por esse vórtex, pela roda. E enxergamos o quanto de energia e tempo perdemos por um consumo de manada (um consumo irrefletido que é criado, "que se faz necessário " quando na verdade não o é).
***
As pessoas quebram a quarentena por ainda não acreditarem na realidade e gravidade do que estão vivendo. Ou por acharem que são inatingíveis ou indestrutíveis, que essa "gripinha de nada" não  lhes afetarão.
Para que elas entendam que a pandemia é realmente algo grave é necessário que algo grave lhes aconteça ou com alguém próximo a ela (amigos,parentes ou vizinhos).Só com o choque é que rasga-se esse fino involucro que as pessoas se submetem. Esse involucro de demência (quase sempre)desejada, que se vestem. Só pelo choque de realidade é que as pessoas quebram o "nunca acontecerá comigo".



sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

O Último Peru

peru de natal ilustração

Num supermercado, duas senhorinhas se aproximam das ilhas de congelados. Como abutres velhos,fitam o único peru que restara do réveillon:
--A minha neta vai amar o peru recheado que farei!!--disse uma delas já encostando no peru.
--Opa.opa, eu vi primeiro. Tira a mão,vamos!
-- Pode até ter visto,mas o nome da senhora,não está escrito nele.A única coisa que está escrito é :peru e não perua...--respondeu debochada a senhorinha com camiseta preta com estampas de limões.
--Dane-se, o peru é meu e ponto. Vi primeiro,logo tenho direito!--rebateu a outra que trajava uma camiseta branca com estampa de maçãs nela.--Antes,perua do que porca selvagem...
--Tadinha...não deve bater bem da cabeça...--sussurrou a de estampa de limão.
Fuzilaram-se com olhares.Se antes queriam o peru,agora era questão de honrar o ego.O ego ferido.O que importava naquele momento era a conquista.Quem ficaria com ele?O peru. Qual das duas sairia como a grande vencedora e esbanjaria o seu ar de superioridade?
--Ok,vamos resolver isso de modo civilizado: impar  ou par?--propôs a de estampa de limões.
--O quê?
--"Ímpar" ou "Par" eu disse,tá surda?
--Par.--respondeu a de estampa de maçã.
--Ímpar --confirmou a outra.-- Um,dois ,três e.... já!!!
Antes que a senhora do ímpar pudesse apresentar os dedos. A senhorinha do par aproximou-se da ilha de congelados e agarrou o peru como se fosse uma jogadora de rugby e saiu correndo em direção ao caixa mais próximo.
***
Dona Valda estava cansada. Quem a vesse ali encostada com o rosto no cabo do esfregão pensaria que levava uma vida difícil.Muito difícil e sofrida. Mas na verdade tudo era mentira.Encenação. Enchera a cara durante o ano-novo e não se aguentava em pé. Era uma morta-viva de George Romero. Mas tudo mudara quando uma senhora com camiseta de estampa de maçã viera correndo em sua direção como um búfalo ensandecido. Bem no momento em que havia ensopado o chão com o seu esfregão...
***
Bette era o nome da senhora que vestia a camiseta branca de estampa de maçãs.Agarrada ao peru como uma jogadora de futebol americano,ela corria em direção ao caixa mais próximo. Corria numa velocidade moderada,pois era o que a idade lhe permitia. Mas mesmo assim estava distante de Angélica a senhora que vestia a camiseta de estampa de limões. Em algum canto de sua mente ,fora despertado um instinto ancestral ,cujo qual lhe dizia : comida conquistada levar já pra casa,comida conquistada levar já pra casa,conquistada levar já pra casa... Tal frase ecoava de tal maneira em sua mente que esta se tornara alheia a tudo ao seu redor.
Tão alheia que não percebera o piso que Dona Valda alagava com o esfregão.
***
"Quem aquela filha da puta pensa que é?" pensou Angélica correndo atrás de Bette a velha de camiseta de maçã."Isso que dá ser uma mulher honesta..."
Estava a poucos centímetros de pegar Bette pela camiseta quando tudo acontecera.
***
A coisa fora rápida. Bette sem perceber escorregou no piso molhado e caiu de bunda no chão.No entanto,sem largar do peru. Em seguida,veio Angélica que na sanha de capturar a sua inimiga e conquistar o tão sonhado peru, não percebera também que o piso estava molhado.Uma caindo por cima da outra. Dalva despertou do torpor alcoólico e tentou acudir a ambas,mas acabou caindo também. Foi como uma avalanche de corpos da terceira idade.
***
-- Esse peru é meu!--disse Angélica agarrando o peru.
-- Nunca!--respondeu Bette pegando da outra metade do peru, com força.
E ficaram nesse cabo de guerra até que... até que o peru rasgou-se ao meio como uma folha de papel.
E num passe de mágica, como se tivessem saído dum transe,quebrado algum feitiço. O interesse pelo alimento perde-se.Esvai-se. 
Jogam os pedaços do que  momentos atrás fora um peru para os lados , levantam-se(com certa dificuldade , como um robô que precisasse ser azeitado) e retomam as suas vidas.
Enquanto Dona Dalva balançando a cabeça diz:
--Mais sujeira,mais sujeira... O vida,o vida,o vida amarga...



quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Fragmentos do Natal


imagem para natal

Em algum lugar da antiga Jerusalém duas alcoviteiras travavam o seguinte dialogo:
--Então, era verdade mesmo? Maria estava grávida, teve um filho e se chama Jesus de Nazaré?
--Era  sim. Teve ele numa manjedoura.
--Menina, eu jurava que fosse barriga de vento... Barriga imaginária...

***
--Feliz Natal, Ruy! Feliz Natal!--disse Heitor abraçando o primo. Estava sendo dissimulado. Todos ali sabiam que não se davam. Não se bicavam. Não podiam coexistir. Isso desde pequenos. Ruy e Heitor. Inimigos desde os tempos de bolinhas de gude, desde os tempos em que apostavam corrida de carrinho de rolimã, desde o tempo que empinavam pipa no morro do urubu.
A rixa começara  na infância, mas os acompanhara até a vida adulta quando culminara na seguinte situação: Ruy se casando com a mulher de Heitor e  Heitor se casando com a mulher de Ruy. Até porque, afinal de contas, chifre trocado não dói.
--Feliz Natal-- respondera Ruy retribuindo o abraço do primo.
Todo Natal era aquela mesma falsidade na casa da avó. Os primos que se odiavam sentavam-se na mesa sempre de frente um pro outro com sorrisos debochados e olhares fuzilantes. Duas forças da natureza preparadas para se entrechocarem a qualquer momento. O momento de vazão dos rancores e da competitividade que se acumulara durante todo o ano, acontecia quase  logo após o segundo copo de capirinha :
--E essa pança, Heitor? Muita cerveja?
--Não tão grande quanto a sua que parece um jabuti repousado. --respondera Ruy se sentindo desinibido (o álcool já fazendo efeito).
--Antes jabuti do que um alce... de chifres gigantescos... Imensos... Inclusive, quando vi você saindo do seu carro,pensei que você fosse ficar entalado por conta do tamanho deles. Imensos, não?
--Não tão imensos quanto à vontade da sua mulher em se deitar comigo...
E ficavam nessas trocas de ofensas a noite toda. 
Até que um deles cedesse (o que sempre ocorria após o quarto copo de caipirinha) e adormecesse como uma criança no ombro um do outro.
***
Enfim, chegara o grande dia. A grande noite na verdade.
Depois de anos tolerando o tio do pavê, Isabel decidira se vingar. Esperou o  momento da ceia: onde todos se esbaldavam nos perus e nas saladas de salpicão. Após devorarem os pratos principais, eles partiam para sobremesa  a especialidade da mãe de Isabel: o pavê.
Levantou-se da mesa, foi à cozinha  e depois voltara para sala trazendo em mãos uma travessa do dito cujo: o pavê.
--Esse pavê,  foi feito especialmente para senhor, tio Leonidas. Bom , apetite.--diz dispondo o prato em frente ao tio.
--É pavê ou pacom...
E antes que ele pudesse responder, Isabel afoga a cara do tio no prato.
Nunca tivera um natal tão feliz como aquele.




quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

A Pessoa Mais Distraída do Mundo

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Acabo de chegar à seguinte conclusão: sou a pessoa mais  distraída do mundo. Sim, sou. Não há nenhum concorrente que se equipare ao meu nível absurdo de distração. Apenas eu somente.Eu vs eu. Digo isso porque  sou distraído duma forma que as outras pessoas não são. Pelo menos as normais.
E tenho como provar.
***
Certa vez, estava voltando do estágio do curso  que fazia na época, quando uma senhora me para segurando em meu braço:
--Oi? Se lembra de mim?
Encaro aquele  rosto curioso, enrugado e tento me lembrar: realmente tento. Tento,tento,tento e... Nada. Nada encontrado em meus arquivos cerebrais. Apenas um vazio. Nada havia sido computado pelo meu cérebro. Se um dia fora computado tais dados foram removidos, jogados na lixeira mais próxima ou lançados ao limbo escuro, úmido e mofento de minha memória.
Passado esse período de uma tentativa inútil de identificação (cujo qual, durara milésimos de segundos) repondo  da forma mais dissimulada que a minha cara de pau permitira:
--É claro que me lembro! Como a senhora vai?
A abraço como se realmente a conhecesse.Como se fosse um parente querido.
--Vou bem. --responde ela. --E como vai a sua família? Sinto a muito a sua perda. Dona Alzira era uma grande mulher. Foi-se muito cedo...
Dona Alzira? Que Alzira? Quem diabos era Alzira?
Não sabia de quem se tratava. 
Muito provavelmente a senhorinha estava com algum lapso de memória e estava me confundindo com outro alguém. Tão distraída quanto eu.Não conhecia dona Alzira e muito menos a dona que pranteava a morte dela. E para me livrar de tal saia justa, digo num tom soturno:
--Pobre, Alzira...pobre Alzira...
E saio correndo.
***

Outro momento que demonstra o quão sou uma pessoa distraída fora quando tomei um ônibus errado e quase fui parar na praia de Bertioga (praia próxima do lugar onde moro).Foi  num dia que também voltava do estágio. Lembro de que o dia tinha sido estressante e enfadonho (algo completamente normal na vida de um estagiário brasileiro) ansiava pela chegada do ônibus como quem anseia por um copo d'água no Saara. Fazia estágio geralmente aos finais de semana (em dias em que a quantidade de transporte é completamente reduzida). Ou seja, o passageiro que esperava por tais coletivos se transformava numa espécie de espantalho de rodovias e pontos de ônibus.
Finalmente  o meu ônibus chega--ou qual que achei que fosse o meu. Subo nele e vou para o fundo do ônibus e me  agarro no corrimão como um bicho preguiça. Olho para baixo, penso na vida: no passado e no futuro. Nunca no presente. Me distraio.
Depois de certo tempo, volto meu olhar para cima, olhando pela janela a minha frente e logo estranho: aquele não era o caminho que sempre tomava na volta do estágio. Ele estava diferente. Mais cheio de árvores mais verdejante. Quase uma selva. No mesmo, instante o meu coração começa acelerar. Havia tomado o ônibus errado....Estava indo para  um lugar que nunca havia pisado. Confirmo com o passageiro mais próximo o que meus olhos já haviam visto: aquele não era meu destino. Puxo a cordinha do coletivo e desço no ponto mais próximo. 
E novamente me transfiguro num espantalho de ponto de ônibus Esperando o que  realmente me levasse dessa vez (sem enganos) para minha casa.

***

Era sábado e estava afim de assistir algo na Netflix. Coloquei um filme e depois de meia hora assistindo-o a fome incorporou meu corpo. Fui a geladeira, peguei algo para comer. Saciava a fome enquanto assistia ao filme. O assisto todo com  tédio absoluto e com o sono já se pendurado em cada uma de minhas pálpebras. Os créditos começaram a subir e só fiz agradecer. O filme finalmente chegava ao fim. Hora de desligar a TV. Hora de dormir. Hora  de deitar na cama e sonhar com felpudos carneirinhos  a pularem fofamente por entre cercas.
Ledo engano.
Antes disso teria de desligar a televisão primeiro. Procuro pelo controle dentre os vãos do sofá desesperadamente: nada. Somente vãos escuros e apertados. Reviro a sala inteira (olho embaixo do sofá, estante, almofadas, debaixo do jarro de flores, atrás do aparelho de som, entre a coleção de dvds e nada...).
Parto para cozinha: olho debaixo da mesa, debaixo da pia, em cima da mesa,em cima da pia e novamente nada. Olho dentro do armário, do fogão e do micro ondas também e também nada encontro. De súbito, um estalo. Começo a rir. Rir de nervoso. Um risinho histérico. Não, não seria possível uma coisa dessas. Não o teria feito. Me encaminho a geladeira e abro o compartimento de debaixo.Nada, nenhum controle. Respiro aliviado. Ainda não estava caquético. Abro o freezer só para reafirmar que não estava caquético e... Para o meu espanto, o encontro: o controle. A prova cabal de minha senilidade.

***

Então? Sou ou não sou a pessoa mais distraída do mundo? 


quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Receita para Curar Um Coração Partido :


como curar um coração partido?

Para curar um coração partido vocês irão precisar de :

1 Coração Partido
1 Panela Tramontina
1 Caixa de Lenços Kleenex 
1 Garrafa de água de 2 litros
1 Colher de Pau

Modo de preparo(atentem-se nesta parte,pois é muito importante) :

1. Chore, mas chore até fungar. O choro aqui nesse momento, tem o  poder curativo. Destile toda a dor que está sentindo. Deixe os pedacinhos de seu coração virem um por um, sem medo. Apenas deixe. Após de um tempo chorando, eis que sentirá um alívio tremendo no peito--será como se tivessem lhe tirado um pesado colete de chumbo dos ombros.
Nesse meio tempo, vá bebendo bastante liquido,hidratar-se é fundamental --por isso,deixe a garrafa de 2l ao seu lado a todo instante).
2.Depois disso pegue o coração em pedaços e jogue numa panela Tramontina junto com água.
Vá mexendo,vá mexendo,vá mexendo.Se as lágrimas vierem nessa hora, deixa-as caírem e se necessário, dentro da panela --não haverá problema.Lágrimas darão um sabor diferenciado nesta receita.
No entanto, de maneira alguma , pare de (se) mexer.Pois  o movimento,depois do choro destilado é a parte mais importante da receita.O movimento faz a coisa andar,seguir em frente.Isto é,sempre que pensar no ex-objeto-amado,mexa o coração em caquinhos na panela.Mantendo-se em movimento.Mantendo-se em frente.
3.Enquanto a coisa toda encorpa , coloque uma música para ser a trilha sonora desse ritual: as opções vão de Adele (para momentos de fossa profunda),Roxette (para um saudosismo oitentista), Alanis  Morissette ( escute todo o Jagged Little Pill  ,pois esse disco é um verdadeiro diário de como é ser jovem e as angústia de sê-lo e consequentemente amar) ,há ainda  cantores de sertanejo universitário que são exímios  em composições de amor  e suas variações e desdobramentos Dentre a miríade que o mercado oferece ,indico Marília Mendonça (músicas para te tirarem do fundo do poço e lhe  te alçarem para superfície).
Aproveite a música e dance: chorando,dance: gritando,dance: rindo e por fim dance: esperneando. Ou penas dance.Se quiser (e será quase que irresistível não fazê-lo)pegue a colher de pau  que estava mexendo na panela  e a faça de microfone, você é um(a) rockstar , expurgue toda a sua dor. Cante para uma arena imaginária.
4. Após o seu pequeno show particular você irá perceber que a massa pegou ponto. Ou seja : os cacos magicamente se juntaram a água e se transformaram numa  mistura homogênea. Pegue-a e a despeje numa forma de  formato coração (não esqueça de untar) e leve ao forno. Deixe uns trinta minutinhos (cuidado para não queimar,por favor) e desinforme.
E voilá ! Eis um coração novinho em folha. Ou quase. Irá notar que há algumas imperfeições na massa : algumas cicatrizes, algumas disformidades,diria.Tudo bem. A receita dera certo. Elas são para lembrar-lhe , que é possível juntar os caquinhos e ter o seu coração de volta.O processo para tal dói(as primeiras paixões são as que mais  doem), causam marcas,mas depois de todo esse processo (a receita), verá que o seu coração se tornara mais forte e resistente. 

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Fuck Everything

Foda-se tudo. Fodam-se todos. 
Fodam-se aqueles que ditam o que se deve se vestir : vista isso, vista aquilo,pois está na moda,pois é  fashion. Foda-se a moda. Não uso. Só uso coisas démodé.Coisas que já passaram da estação porque sempre estive fora dela.
Foda-se tudo. Fodam-se todos.
Sobretudo, aqueles que ditam o que se deve comer ou beber : não coma isso porque engorda,não melhor, coma ,pois ele ajuda a reduzir peso,ajuda a você ficar magra feito um esqueleto,um cadáver-modelo. Beba esse shake  e comemore o seu corpo másculo de modelo de Rodin e após bebê-lo não se esqueça : prenda o ar nos pulmões e seque a barriga, seja uma estátua viva. Decore o meu feed.
Foda-se tudo. Fodam-se todos:
Que estão mortos por dentro ,no entanto, precisam morbidamente ostentar a falsa felicidade das redes : sorria por fora, chore por dentro e poste.Vamos velar a morte do nosso parente? Vamos! Ligue a porra do celular e faça uma live do velório  e depois tire aquela selfie mostrando as lágrimas (forçosamente poucas ,eu sei,porém ainda lágrimas) escorrendo de seu rosto ao lado do morto,mas não esqueça do mais importante, tá ? De ajustar o filtro para que possa (sei,sei  uma tarefa difícil) diferenciar o vivo do morto.
Registre sua vida completamente:beba,poste.Coma,poste.Cague,poste.Transe,poste.O verbo postar  acima de tudo,acima de todos. A vida passa rápido demais para que não possamos  registrá-la. Pararmos de vivê-la e registrá-la. Mil imagens valem muito mais  que vivê-las.Viver stories é melhor do que realmente  viver a vida ,já que não corre se corre o risco de se viver e se machucar.
E antes que  esqueça :  
Foda-se tudo. Fodam-se todos.

sábado, 16 de novembro de 2019

Como criar ânimo e voltar a escrever no meu blog? (Dicas)

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Ilustração por  Fernanda Young,uma de minhas escritoras-musas.

Sei que ninguém deve mais me ler aqui nesse espaço,mas foda-se. Continuarei a escrever mesmo assim.
Hoje vou falar de algo que acomete muitos escritores como eu ,que é : o desânimo em escrever,publicar.
Fiquei quase que cinco anos sem escrever porque estava cansado, meu trabalho(o meu atual),me tomava (toma) a maior parte do meu tempo e ficava tão exausto com isso que  acabava não tendo pique algum para escrever,minha mente fértil fora rapidamente minada. Isso fora logo  no começo,quando comecei nesse trabalho. Era tudo muito estressante,tudo muito novo.Fiquei nesse estado de letargia para escrita e leitura por um período de quase dois anos. Dois anos deprimentes para uma pessoa criativa como eu.
Foi então,que fui retomando o hábito da leitura aos poucos.Lendo livros fininhos,quadrinhos e romances mais longos,calhamaços depois. E com o prazer dela veio a vontade de escrever. Escrever que sempre fora o ar da minha alma,o seu alimento,a sua bebida. Até que decidi começar a retratar a minha vida num diário. Uma página por dia ou duas ou mais,dependendo da ânsia de escrever no dia. Ao me biografar nesse caderno,isso me ajudava a recobrar esse tesão pela escrita.sem compromisso comigo mesmo:  uma espécie  de exercício sem muito esforço  ou obrigação (penso que quando fazemos algo por obrigação ,essa coisa não sai tão boa quanto poderia ter saído se feita com prazer). Escrevo o que sinto vontade. Deixando a criatividade aflorar. E ainda por cima exercitando a escrita que é um músculo e que sem a comida certa e o exercício adequado, ele não cresce.
Resumindo, as dicas que eu dou são :
1- Escreva um diário, escreva nele de forma frequente. O seu livro de crônicas. O seu livro de atividade narrativa, onde a sua vida é a matéria prima.
2-Leia. Sei que é clichê,mas o faça. Leia de tudo : Quadrinhos,romances , gibis da turma da Mônica, livros de receita de Dona Benta etc. E depois que o desejo voltara e  hábito concretizado, leia coisas mais densas para encorpar a sua escrita. Leia os cânones do gênero que mais lhes apetecerem. Se gosta de terror,leia mestres do horror como Poe,Lovecraft e King.
3- Assista muitos filmes,ouça muitas músicas,vá a museus,vá a shows,teatros. Rodeie-se de arte.Se abasteça culturalmente.Monte a sua bagagem,crie o seu repertório. Viver e escrever são coisas intrínsecas. Indesgrudáveis. Ao fazer isso, você alimenta o solo de sua criatividade.
Fiz esse processo antes de voltar a escrever aqui, por durante uns dois anos e a minha vida se transformara.Voltei com estórias para contar.
4- Escreva, mesmo se naquele momento o seu texto não for bom. Apenas escreva. Com a prática você vai melhorando,moldando o seu estilo (o que gosta ou não num texto seu, a sua atitude).
Bem, essas foram algumas coisas que me ajudaram a voltar a escrever e que para mim funcionaram.E é tão voltar a escrever,me sinto tão vivo.



Se este post fora-lhe útil ,deixe um comentário. Diga o que achou :)
Se quiser bater um papo,me adicione nas redes sociais <3

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Crônica de Saudade

fotos de cronicas de saudades


Arlinda observou Armando costurar o jardim. Observou este chegar até o portão pequeno e enferrujado.  Fitavam-se: ela da janela ele do portão. Aquele seria o último olhar dos dois. Uma lágrima desfolhou de Arlinda; Armando tentara sorrir alegre, mas só transparecia tristeza e saudades. Tentaram dizer como se amavam. Contudo, nada saía de suas bocas. As palavras ficavam mudas, engasgadas na garganta.
O tempo passara. E nada de noticias de Armando. Deveria ter se passado meses e até anos. Arlinda como qualquer pessoa acometida de saudades, não conseguia mais contar. Contar para ela era martelar a sentença de que ficaria mais um dia sem ver quem amava. Era morrer aos bocados a cada dia. Por isso, não contava mais.
Podia mandar cartas, mas ela não o fazia. Tinha medo de resposta. Podia ligar  também,contudo, também tinha medo.
 Mandara, certa vez, que a mãe ligasse no quartel para perguntar do marido, porém,antes que a velha perguntasse,puxou o telefone da mão dela colocando-o no gancho. Tinha medo do que ouviria.
O tempo fora passando novamente. E o coração de Arlinda cansado de sofrer, acamara a moça.
 -Mãe, antes de ir queria saber o que acontecera com Armando—implorava no hospital segurando a mão materna. Sabia que não duraria mais. Não queria durar mais na realidade. Queria morrer. Pode parecer estranho, mas quando se ama as coisas tomam proporções infinitamente maiores. O dramático se torna trágico. —Preciso saber se ele está vivo ou morto.
Já em seus últimos dias de vida, Arlinda num fiapo de voz, pergunta a  mãe:
-Então, o que é do meu marido?
A velha hesitara em contar. Parou, pensou por um momento. Respirou ,disse:
-Morrera combatendo.
No dia seguinte, no enterro de Arlinda, Armando aparece. Viera escondido. Deixara mulher e filhos num hotel da cidade.
-Por que ela não me escrevia? Não me telefonava?—perguntou ele a mãe de Arlinda num canto.
-Ela tinha medo de que você tivesse morrido.

-Eu não escrevia e não telefonava para ela, porque tinha medo que tivesse me esquecido de vez. — Isso era verdade, mas em nenhum momento o rapaz sofrera de saudades. Na verdade, no começo até tivera saudades. No entanto, com o tempo esta fora esmaecendo, até que fosse esquecida por completo. Até quando Armando sem sofrimento algum se casara e tivera filhos.

sábado, 11 de maio de 2013

O QUE É SER MÃE?

dia das mães
 
 

Mãe é um ser do sexo feminino que te gesta durante nove meses dentro de seu próprio ventre. É aquela que fica a imaginar como você é ou será, isto é, fica do primeiro ao último mês planejando como será sua vida.
É aquela que te nutre e que te ampara quando você arrisca a dar os seus primeiros passos para o mundo. Quando você correu a passos bamboleantes foi ela quem esteve lá de braços abertos com um sorriso no rosto, esperando. Se você caísse e se machucasse, com certeza, ela lhe socorreria...
Basta olhar em seus olhos, vamos experimente!
Com passar do tempo ela irá tentar te ensinar o que é o certo e o que é errado e você concordará (pelo menos por um tempo). Haverá momentos em que ela dirá:
-- Filho, não coloque o dedo na tomada!
Você desobediente e muito curioso a desobedecerá, levando um choque que nunca lhe sairá da cabeça. E após levar o choque à mãe como qualquer ser protetor, falará:
--Não disse!
E depois vai te pegar no colo até que você se tranqüilize. Com voz um pouco branda dirá, para que não repita o ocorrido, pois senão ela o poria de castigo. Porém, mal sabia ela as tantas e tantas vezes que teria de repetir tais palavras de alerta.
O tempo vai passando e você crescendo. Vai se tornando cada vez menos dependente dela, contudo, isso não quer dizer que ela irá te abandonar, deixando você aprender as coisas por si só. Pelo contrário, ainda continuará lá, te cercando como uma atenta leoa, te auxiliando nessa caminhada que é o viver. A experiência dela ajudará construir a sua.
Ao chegar da adolescência, a fase que mistura o adulto com a criança, a mãe vai ficando em segundo plano, pois surgem os amigos, as tribos, o sexo, namorados, o rock e dentre outras coisas, que te deixavam com a impressão de ser adulto, de saber tudo da vida, de ser o mais experiente.
Pobre criança...
Mal sabe que é nesse momento de fragilidade, de movimentação, de transformação do seu ser é que ela mais vai precisar do apoio materno. Nesse momento, irá se esquecer que é pré-adulto e voltará chorar no colo da mãe quando: acontecer à primeira briga com o namorado; quando tiver confissões para contar quando aquela sua melhor amiga não te parecer mais tão confiável assim; quando sentir-se diferente em meio aqueles colegas de classe que parecessem seres perfeitos e por aí vai...
Motivos para debulharem-se me lágrimas no colo da mamãe não irá faltar.
Ser mãe nessa fase é quase como fazer uma série de exercícios intensivos e diários. Só que invés de movimentar músculos, estará movimentando algo mais delicado: seus sentimentos.
Pois lidar com os próprios sentimentos diante do de outros, de seus filhos é algo muito complicado, principalmente quando o filho está na adolescência. Fase em que tudo se contesta em que se ouvem muitos nãos como respostas.
Época de discordância entre eles que só vão ser vencidas quando, os filhos submergem do mar turbulento que é o adolescer, respirando com calma e sem se esquecer da infância, o ar frio, o ar adulto.
Talvez essa seja a parte mais tranquila de ser mãe, não que vão existir problemas, pensar assim seria muita ignorância. Haverá problemas, sim, mas a mãe fará parte coadjuvante, aconselhando o filho a tomar decisões, a tomar rédeas de sua própria vida.
Eis que, ao olhar com saudades da infância pro retrato do filho já adulto, ela relembrará os momentos maravilhosos em que teve a seu lado e abrirá um sorriso grato por ter sido mãe.
Por ter sido sua mãe.



 

sábado, 10 de novembro de 2012

A CARTA

raffael petter
Termino de ler a carta. Solto um risinho abafado. Procuro o emissário dela. Quem seria?Observo todas aquelas caras. Não, não consigo encontrá-lo. Era uma missão impraticável, pois os rostos de meus companheiros de classe estavam impassíveis, atentos a aula modorrenta de história.
O jeito era chamar por Vivian, minha melhor amiga:
--Ei, Vivian!—digo quase berrando.
Contudo, não me ouve. A pobre estava surda. A culpa obviamente era de seus fones de ouvidos que ia lá às alturas, lhe bloqueando a audição.
Respiro fundo como se estivesse numa aula de mergulho.
Há casos em que só são solucionados através de atitudes altamente extremas.
-- AIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!!!!!!!!!!!!!!!—anuncia a recém-beliscada. Fazendo com que a sala toda vertesse seus olhares para ela. Pouco tempo depois, viera o professor de história atraído pela distração da sala. Pergunta:
--Algum problema, Vivian Moraes Pinto?
-- Não... Nenhum. —responde ela, olhando-me feito um pimentão em fúria.
--Então se assim. Diga-me o autor da seguinte frase:
         “É na mudança que as coisas assentam.”
A pobrezita de minha amiga fica olhando timidamente pra suas unhas esmaltadas com uma provável vontade de roê-las. E eis sua resposta:
-- Não sei...
Ao receber tal resposta o mestre vai ao quadro negro (na verdade era verde) e escreve numa letra garrafal: HERÁCLITO.
--Desculpe. Não foi por querer—digo falsamente. Foi por querer sim. Ninguém mandou ficar ouvindo música no último dos últimos volumes. O bom de uma amiga Vivian é que ela perdoa as coisas facilmente.
-- O que você queria?- pergunta ela. Entrego-lhe a carta. Lê-a e me sorri.
--Quem você acha que é?
-- Bom, eis as opções: a)Dudu, b)Luiz Olavo ou c) Felipe? Eu aposto no Luiz Olavo ele é apaixonadíssimo por você...
Viro-me pra trás e olho. Não. Ele fazia o tipo intelectual, o gênero cientista.
-- Descarto—respondo a sugestão de minha amiga.
-- Então que tal o Dudu? Ele também era super afim de você lembra-se?
Viro minha cabeça pro lado direito, encontro Dudu na última carteira onde estava sentado. Impossível. Não fazia o meu tipo. Por quê?Ah. Porque ele era gótico e não gostaria de um namorado, com qual teria que dividisse o meu estojo de maquilagem.
-- Descarto três vezes. Impossível, impossível e impossível mesmo!—começamos a rir feito duas tontas.
--Então só nos resta... O FELIPE!!—grita minha colega novamente, pra sala inteira. O que faz nós voltarmos àquele estado vexatório que, nos adolescentes,sempre entramos quando somo observados.
E o pior de tudo nem era isso. Era o sorriso de Felipe em nossa direção. O professor de história se aproxima. Ia-nos perguntar algo. Oh God!Estava ferrada!
Contudo, o maravilhoso sinal pra saída soa! Uhu!
E eu e Vivian, tão logo arrumamos nossas bolsas como verdadeiras escoteiras e saímos à cata de Felipe. Tinha de descobrir se era ele ou não.
                                       ***
Encontramos com o suspeito num ponto de ônibus. Aproximamo-nos dele e pergunto sem rodeios.
-- Felipe esta carta e sua?
Ele pega da carta e a lê. E me responde o seguinte:
--Não escrevo estas cartas ridículas de amor... Muito menos a você.
Congelo. O chão debaixo de meus pés parece que afundara. Meu rosto enrubescera, parecendo ter levado cem mil bofetadas na cara. Era, em suma, como se um rolo compressor houvesse passado por cima de mim. Eu e minha melhor amiga saímos de perto desse estúpido. Estávamos arrasadas eu mais do que Vivian óbvio.
Se não fora ele, nem o Dudu ou muito menos o Luiz Olavo, então que fora?
A resposta nos veio logo que assentamos num banco de praça ali perto.
-- Olá, garotas... É Suellen, você pegou algo que é meu...
Levanto minha cabeça pra ver quem era. Fico sem ar. Não conseguia acreditar no que meus olhos viam. Tom o cara mais gato da escola e da minha sala, falava comigo. Como não havia pensado logo nisso! Então fora ele... Desde o começo era ele...
-- Ah, sim... Agora entendo... Então foi você— mal consigo terminar de falar, pois ele me interrompe com aquela voz de barítono.
--A carta não era pra você e sim pra Jennifer... Foi mal—diz me pondo a mão na cabeça.
Pela segunda vez consecutiva, meu mundo desaba. O tempo todo a carta era pra loira estonteante, que sentava na carteira a minha frente!
Devolvo a carta pro dono e saio puxando Vivian pelo pulso. Pegamos o primeiro ônibus que vimos.
Nunca mais abriria outra carta.
Gostaram?