quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Terror do Cotidiano,12- Heil Hitler,Heil Hitler!

A noite caíra por completo a mais de uma hora. Marx,corrigindo a prova de historia que aplicara naquela tarde,nem vira o tempo passar de tão concentrado que estava.Olhou para o relógio em seu pulso e de repente, lembrara-se do jantar comemorativo que teria com Eliza, sua mulher. Iriam comemorar os cinco anos de casados. A prova era sobre a Segunda Guerra Mundial. A prova que aplicara naquele dia era uma espécie de análise para ver se os alunos haviam apreendido direito. Ao seu ver, a maioria dos estudantes haviam compreendido como a guerra surgira e seus efeitos quando acabara. Mas dentre todas as outras provas, uma em especial lhe chamara a atenção:
Opine sobre as atrocidades ocorridas durante a Segunda Guerra Mundial:
HITLER É O PODER. É A ESPECIE MAIS EVOLUIDA DENTRE TODOS OS OUTROS SERES HUMANOS.JUDEUS , NEGROS E  HOMOSSEXUAIS DEVEM SER EXTERMINADOS.
Duas linhas escritas com caneta vermelha em letras maiúsculas e nada mais.Anotou em seu diário o nome do aluno com o qual iria conversar amanhã. No entanto, Max teve um estalo repentino e inconsciente. Levantou da mesa, enfiando com pressa e de qualquer jeito as provas corrigidas dentro duma pasta.
***
Fora até a sala da diretora. Ela não estava lá .Pegou do telefone: ele estava mudo.
***
Max se lembrava com clareza as palavras ditas por Hercovitch e seus amigos ,ao aluno novo o Isaac:
-O que esse judeuzinho de merda faz aqui nesta escola? Como uma criatura como ele ousa manchar o mesmo chão que pisamos?
E antes que Isaac deferisse um soco na cara de Hercovitch,Max segura  o punho de Isaac:
-Vá para diretoria imediatamente,Hercovitch!
-Mas,Max ele é um...
-Não me interessa o que ele é ou seja,quero apenas que você vá para sala da diretora.
Hercovitch ,vermelho de raiva marcha em direção a sala da diretora.
***
Parou em frente ao laboratório da escola.Olhou pela quadrangular janelinha da porta e não acreditara no que os seus olhos viram: o menino Isaac preso a uma maca,debatendo-se tentando livrar-se das amarras que o prendiam,seus gritos eram abafados por um pano posto em sua boca.
Ao lado dele estava, Hercorvitch e seus amigos , vestidos de branco.
Max tentou ligar para polícia só que o celular estava sem sinal.
Súbito, as vozes desafinadas dos garotos que carregavam em sim a inocência da infância e maldade adulta, começam a proferir:
-Heil Hitler!Heil Hitler!Heil Hitler!Heil Hitler!
E a cena que o chocara e que iria lhe perturbar por todo o resto da vida ,se sucede:
A diretora travestida de nazista ( mas parecia um cosplayer de Adolf) aproximasse dos garotos e diz:
-Purifique este ser impudico!
Max não conseguiu entender muito bem como a diretora aparecera ali. Alias ,não entenderia a sucessão de fatos assistia em cadeia.
Hercorvitch pegou uma ampola e a exibiu um estande no ar. Vascolejando o liquido no recipiente. Isaac observava tudo como uma mosca indefesa enredada na armadilha morta de uma aranha faminta.
Gritou ,uma. Gritou ,duas. Gritou,três. Contudo,gritara quando Hercovitch sem hesitar a nenhum momento,jogou o acido sulfúrico em seu rosto.
Max gritou em agonia, num desespero quase louco em ver o aluno agonizante a se remexer no leito. Tentara arrombar a porta ,mas antes que pudesse arromba-la .Mãos frias e enluvadas de branco enredam a sua boca.


terça-feira, 25 de novembro de 2014

Terror do Cotidiano, 11 - Acumuladora

Acumulava, pois me sentia vazia por dentro e por fora. Então para preencher tal vazio eu acumulava, revistas e cartas. Já era conhecida na vizinhança por passar em frente às casas, indo aos montes de lixos assentados nas calçadas, em busca de revistas e jornais de hoje e ontem.
Nenhum de meus vizinhos falava comigo, pois eu os evitava. Eram hipócritas. Falavam de mim pelas costas, afastavam-se de mim quando transitava na mesma calçada ou rua como se fosse uma espécie de diabo. As crianças  destes, crentes, no que os pais narravam sobre mim, fugiam terrificadas.Havia aquelas mais ousadas quais lançavam pedras em direção ao meu telhado ,vidro de minha janela.
Aquilo tudo só me aumentava o buraco que sentia em meu âmago.
Tinha de acumular, tinha de acumular, tinha de acumular, tinha de acumular, tinha de acumular, tinha de...
Quanto mais o tempo passava, mais eu acumulava. Era como se um buraco negro existisse dentro de mim. Um poço sem fundo. Enquanto, atulhava minha casa com essas coisas, fingia que não notava que o espaço dela diminuía cada vez mais. A casa estava ficando inabitável, contudo, continuava vazia.

Certa noite, subo ao segundo andar de minha casa para por umas revistas que recém coletara.Desço e vou me deitar na sala: único lugar ainda habitável. Fecho os olhos e sinto o vazio percorrer todo o corpo. De repente, ouço um estalo fortíssimo vindo do alto e....

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Terror do Cotidiano, 9 - O Porão

-Tem certeza absoluta que você trancou a porta do porão?—perguntou Elisabeth.
-Sim, tranquei querida— respondera Michael marido de Elisabeth.
Estavam no corredor da casa onde dava para o porão. A pouca luz do corredor dava a feição de seus rostos algo quase inumano...
***
-Michael?Michael?— chamou Elisabeth, cutucando o marido na cama.
-O que foi?—respondeu ainda sonolento,abrindo uma tenebrosa boca de dentes de ouro num formato de Ó.
-A policia está aí...
***
-Desculpe o incomodo a essa hora da noite, mas é que recebemos a denuncia de gritos vindo de sua casa, então tivemos de verificar...
O policial revirara a casa inteira em busca de algo. Porém, não encontrara nada. Despedira-se do casal desculpando-se.
-Desculpe mais uma vez o incomodo...
-Imagine....— respondera Elisabeth fechando logo após  a porta.
Em seguida, Elisabeth e Michael abriram a porta, acenderam as luzes e começaram a descer a escada do sótão.
Charles estava num canto do sótão encolhido como uma pomba ferida tentando dum gato.
-Quem mandou você gritar Charles?—gritara Elisabeth segurando com a tremula mão da direita o que parecia ser um chicote...

Charles se encolhera ao fundo do sombrio porão como um  rato, que recua ao se deparar com um gato.

sábado, 15 de novembro de 2014

Terror do Cotidiano,10 - A Viscondessa


raffael petter

I
Ligou para Tereza. Disse que ela reunisse seus melhores amigos,pois tinha algo a lhes contar.
  II
Casa de Tereza. Estavam na sala: ele,Tereza, Humberto(amigo de Tereza) e Mariana(também amiga de Tereza).
Jogavam conversa fora,no entanto, Tereza sabia que algo estava acontecendo.
III
Já anoitecera quando Tereza pergunta:
- Cadê ele?
- Deve estar no banheiro...
- Nossa esse banheiro fica aonde Mariana? Em Neverland? –respondera Humberto. Tereza cai na risada. Mas continuava nervosa e com aquela sensação de que algo estava prestes a acontecer.
IV
Ele voltou a sala escondendo algo atrás das costas. Todos observavam atentos. Não era aniversario de nenhum deles ali.
- Tenho um presente pra você ,Tereza— disse Tirando o que escondia: um sabre.
Desembainhou a arma branca cravejada de pedras preciosas e degolou Tereza.
V
Um banho de sangue. O corpo da Tereza parecia uma fonte interminável de sangue.
Mariana gritou,gritou,gritou...
Humberto, em choque tentou deter ele, mas ele fugira. 

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Terror do Cotidiano,8- Eleonor e as Raposas

Raposa e uma mulher
Eleonor sabia que se eles continuassem a desmatar a situação só iria piorar. Para que construir mais hotéis naquela cidade? Para quê?
Ao anoitecer entabulara uma conversa com o prefeito da cidade. A luz de velas e ao som de harmoniosos violinos ao fundo.
-Então, bióloga o que você deseja?
-Desejo que você pare de desmatar, Joe...
Joe olhou para bióloga brasileira com ternura. Não deveriam ter se separado. Eleonor era uma ótima esposa.Porém,muito extremista quando o assunto era ecologia.
-Infelizmente, não o posso fazer querida... —disse ele levando a mão na de Eleonor como se fosse uma serpente,mas Eleonor se esquiva pegando a taça de vinho tinto.—O projeto que estamos a realizar só traria benefícios para cidade.
-Então essa é a sua palavra final, não é?—perguntou ela encarando-o.
Joe anui a cabeça.

Desmataram o resto da floresta. Construíram em seu lugar vários hotéis de luxo. Os animais amendotrado e famintos fugiram para o local mais próximo onde encontrariam comida e água facilmente.
Raposas dominavam as ruas. Algumas chegaram atacar crianças. Os pais e filhos acossados mantinham-se ilhados em casa.
Casa do prefeito: noite, uivos altos e raivosos. Ele soubera da invasão de raposas na cidade, contudo, estivera tranqüilo até agora já que onde morava seria impossível elas invadirem.
Levantou-se. E pôs-se a observar da janela de seu quarto.


Eleonor estava nua e raposas e outros animais observavam Joe com olhos cintilantes.

Terror do Cotidiano,7 - O Autômato


Colocou o cartão de memória na reentrância, apertou o botão e torceu. Tinha que funcionar. Apertou o botão pequeno de cor verde quase imperceptível na nuca. Esperou. Um estalido metálico.
Ele olhou a máquina se mover. Era exatamente como ela. Aproximou-se e a encarou. Pode resgatar lá no fundo vítreo e obscuro de seus olhos, algo que rememorasse a Moira. Não sabia o que era.Na verdade, sabia,contudo,não conseguiria exprimir em sentença.
Tocou a pele emborrachada e fria. E a beijou ternamente.
Ela não correspondera.

Terror do Cotidiano,6- Doroti

Contos de Terror com bonecas


Doroti segurava Melissa com muita força. Era a sua única amiga. Olhou para as nuvens negras no céu e o furacão saindo dentre elas vindo em sua direção.
Mirou a boneca de pano pendente em sua mão direita. Melissa não se pronunciava por quê?,pensou a garota. Momento antes de fugir do sótão de sua casa pode ouvir Mel, lhe dizer que aqueles dois furacões as levariam a terra de Oz. Contudo, a boneca de pano calara-se em seu mundo de imobilidade.
O vento se tornava cada vez mais forte. O milharal se curvava a aquela força que parecia inexorável. A ventania silvava... Parecia tentar se comunicar com a pequenina garota.
Doroti deixou as lágrimas fugirem para logo em seguida enxugá-las com os punhos. Olhou para trás. Ainda dava tempo de voltar. Voltar para casa. Retornar aos braços apertados e ternos de sua vó que adormecera no sótão.
O furacão se aproximava.
Olhou mais uma vez para casa de madeira atrás de si.
Observou Mel por uns instantes e esta lhe sorrira.

Não podia voltar. Teria que ir para Oz. Não poderia voltar.

Terror do Cotidiano,5- A Foto

Contos de terror mais fotografia
Não lembro que matéria foi essa :(

- Por que tínhamos de vir justo pra cá Marcos? Credo, esse lugar me dá arrepios... —disse Lorena esfregando os braços. Estava frio e uma densa neblina cobria todo o Alcatraz.
-Ué,fotografar...
-Não seja cínico Marcos...—disse ela sorrindo.—Viemos aqui por causa do meu ensaio fotográfico. Nada mais.
-Certeza?—disse ele erguendo a sobrancelha grossa.
-Sim, certeza –responde atrevida. Aproximou-se de Marcos. Beijou-o e pegou da máquina que estava em suas mãos.—Tire a roupa,vamos.
-Você está louca?
-Não. Vamos, tire a roupa.
Marcos sorriu e começou a se despir. Casaco, calça e sapato. Ficara só de cueca.
Fora então que Lorena começara a fotografá-lo: click,click,click. Tirara muitas fotos, muitas.
-Acabou já?—perguntara Marcos ao notar que Lorena parara de tirar fotos subitamente. Centrada, ela observava a máquina. Isso preocupara Marcos. —O que foi?
Estende a máquina ao fotografo.
No visor, Marcos estava com a língua pra fora e vesgo, mas o que chamava atenção era a pessoa atrás dele. Um homem com saco de papel na cabeça com dois furos na altura dos olhos, segurando um machado. Olhou imediatamente para trás.
Não havia nada.


sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Terror do Cotidiano,4- Os 3 Raios

O Primeiro Raio: Ressuscitada
A lágrima de Mayara escorrera por sua bochecha e caíra na lápide de sua mãe. Não adiantaria secá-la, pois chovia. Uma verdadeira tempestade. Nuvens fechadas, feitas de chumbo, rondavam a sua cabeça. O clima relacionava-se com o que Mayara sentia naquele momento: a dor obscura da perda. A dor da saudade de perder alguém que se ama. O coração sendo esmigalhado pela garra da saudade: não mais veria a mãe; não mais sentiria o seu cheiro; não mais ouviria sua voz; não mais sentiria o seu afago.
Estava sozinha no cemitério. O pai a esperava do lado de fora. No entanto, não podia, não queria sair dali. Precisava fazer companhia à mãe falecida. Amassou-se na lama, esfregou-se na rala grama. Chorava.
***
Foi tudo muito rápido: o céu estremecera parecendo desabar: um raio cortou-o em direção da Mayara. A garota não teve tempo de se levantar, fugir.  Também não queria. Estirou-se de peito aberto no tumulo materno, esperando o raio atravessá-la.
***
Foi despertada com um toque na testa. Um toque frio e molhado. Abriu vagarosamente os olhos ,sentindo vir junto ao ato uma enorme dor de cabeça. Não se recordava de nada do que acontecera.
Olhou para cima e gritou num misto de horror e euforia: a mãe de Mayara havia ressuscitado.
O Segundo Raio: A Salvação
Souza  finalmente sacara o primeiro pagamento de seu no emprego. Suara para tê-lo. Trabalhava como repositor de mercado: um oficio que exigia muita paciência e agilidade. Meses atrás estava desempregado com a mulher grávida. Quando parecia sufocar e pensava em se matar o mercado ao qual enviara um currículo liga, para contratá-lo.
Tudo bem que o salário não era o melhor de todos,contudo,dava para ir aos poucos abastecendo a casa e  ir comprando o enxoval da criança: uma menina como  ficara sabendo hoje ,quando Sandra lhe ligara ,na hora do almoço.
***
Desceu do ônibus. Armou o guarda-chuva e seguiu andando. O céu parecia estremecer quando um cara encapuzado aborda Souza, com revolver em punhos.
-PASSA A GRANA!
***
Não podia entregar o dinheiro,mas não havia alternativa.Ou era isso ou era: morte.Hesitou ao entregar o pacote ao bandido.Isso fora o suficiente para que ele puxasse o gatilho.
Um raio coriscou na direção dos dois,tudo ao seu redor estremecera. Antes de ir ao chão,Souza vira uma forte luz atingir o bandido.
O raio havia lhe atingido.
***
As nuvens junto com a chuva se recolheram, para a lua cheia gordíssima poder reluzir. Souza despertou encharcado,sem entender bem o que acontecera.Ergueu-se.Um cheiro de carne esturricada pairava no ar.Procurou do pacote  e o encontrara ao lado dum monte chamuscado.
Sorrira.
Se contasse a Sandra ela não iria acredita.
O Terceiro Raio: O Milagre de Igor.
-Mãe, quero morrer tomando banho de chuva. —disse Igor um garotinho de apenas oito anos,num estado terminal de tumor.
-Mas filho....— argumentara a mãe do menino.
-Eu quero mãe. Eu preciso. —respondeu ele resoluto.
Agata sabia que não resolveria em nada discutir com Igor. Conhecia bem o filho que tinha. E ela não queria desperdiçar os últimos minutos ao lado dele.
Se era aquilo queria, ela o realizaria.
***
Foram para cobertura do hospital. Agata segurava o corpo raquítico do filho com todo o medo do mundo de ele cair no chão e quebrar-se como se fosse feito de vidro. Ambos,em poucos minutos haviam se encharcado.
Igor era a mais pura euforia.
Sorria.
***
Com Igor ainda em seu colo Agata o girava, girava e gira. Sabia que aquele momento único jamais se repetiria.O abraçou com todo  o seu amor de mãe : o amava,mais do que tudo o amava.
Um raio coriscou o céu e em pouco tempo atingia Agata e seu filho.
***
-Mãe,mãe,mãe,mãe...—disse Igor sacolejando a mãe adormecida no chão. Havia para de chover. O céu estava completamente aberto e azul ,sem a presença de uma nuvenzinha sequer.
Agata acordou com uma dor horrenda de cabeça: o que havia acontecido?
A resposta viera assim que depositara os olhos em seu filho Igor em pé a sua frente. O menino fraco que antes não conseguia firmar o corpo nos pés,encontrava-se radiante  a sua frente.
-Mas ?

-Foi a chuva mamãe,foi a chuva!

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Terror do Cotidiano, 3- Aranhas Humanas


raffael petter contos
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Desde que saímos daquela ilhota em Fernando de Noronha estou trancado aqui neste quarto caiado de hospital. E não podia me mover: braços e pernas foram atados por cintos duros de couro a cama que estava deitado. Sentia-me num hospício. O pior de tudo é não lembrar como eu fora parar lá. Só sei que um belo dia de manhã – sabia que era manhã, pois a luz do dia infiltrava a persiana entreaberta- sou despertado pelo doutor Elias.
***
- Como você está se sentindo meu jovem?—perguntou um homem a minha frente de jaleco branco e que me perscrutando por detrás daquele óculo redondo, de lentes fundo de garrafa.
-Bem... —tentei mentir, no entanto, os olhos do velho médico não me permitiam. —Acho...
-Sente alguma dor?—disse arregalando os olhos. —Seja sincero...
Relutei. Sabia que contando a verdade não sairia dali tão cedo. Mas a dor atrás da minha coluna perto das costelas era algo insuportável para minha condição humana.
-Estou com uma dor na coluna...
- Normal. —falou como se eu tivesse espirrado por aspirar poeira. —É o efeito dos medicamentos.
-  O que eu tenho ? Doutor....—procurei pelo nome dele,no crachá espetado em seu jaleco: Elias.—Elias?
- Sim,Elias. É só uma virose muito violenta que você e sua amiga adquiriram por irem longe demais. Por irem, aquela parte de Noronha...
De repente, minha cabeça estala e meu coração incendeia: Clara também estava ali. Contudo, como ele sabia que tínhamos ido aquela parte da ilha? e como fomos parar naquele hospital? e quanto tempo estávamos nele? e haveria alguém em nossa busca?
Antes que pudesse obter respostas para tais perguntas, um alarme ecoa.Uma sirene,semelhante ao grito desesperado de uma mãe que acaba de parir e descobre que seu filho está morto.
Elias correu para o telefone fixado na parede:
-O que está acontecendo? CO-MO AS-SIM E-LA FU-GIU?—perguntou oscilando o humor.A cara plácida de antes ,dera o lugar a máscara decomposta de raiva.
- O que foi Elias?—pergunto após ele desligar.
-Nada. Não se preocupe tudo ficará bem, meu jovem rapaz. –respondeu tocando em meu ombro com uma nervosa leveza. —Tudo ficará bem.
***
-Vamos, falta pouco. Olha o aviãozinho....—disse Camille numa voz infantil,tentando com que eu comesse aquela comida ,papa.—Ok,chega por hoje ,então.
-Então, o que acontecera hoje?
-Não, posso contar. —disse ela recolhendo a bandeja com sobras e colocando no carrinho de alumínio.
-Por favor,Camille—disse segurando seu punho. Camille arrepiou-se, estremecendo de desejo. Sempre durante as refeições ela desamarrava as minhas mãos para que pudesse tomar suco. Mas isso viera depois de muita persistência e calma. Tive de ir conquistando-a aos poucos.
-Você não confia em mim ? Hein? Não confia?—questionei puxando-a para mais perto de mim. Os olhos puxados dela se comprimiram. Arfava, excitada. Umedecia-se.  A beijo.
***
Noite. Lua cheia. Suava frio. Costas coçavam e doíam num ritmo alucinante, infernal. Pego do espeto que Camille usava em seus cabelos negros e desamarro meu tornozelos.
Pronto. Estava livre.
Dou uma verificada nos batimentos cardíacos de Camille adormecida no chão. Após beijá-la a sufocara por tempo apenas suficiente para desmaiá-la. Sem matá-la. Peguei-a e a amarrei na cama. Procurei pelas chaves no bolso do jaleco. Abro a porta. Saio.
***
Precisava encontrar Clara. Seria difícil, pois dos dois lados daquele extenso e interminável corredor, havia portas com quadradinhos. Com cuidado, vou olhando um a um.
De súbito,um grito de mulher.
A voz era de Clara.
***
Paro bem em frente ao quarto de onde viera o grito. Pego a chave de Camille e a enfio na fechadura. Era uma chave mestra. Serviria em qualquer porta que eu quissesse,mas a única porta que queria abrir era aquela onde Clara estava.Giro a maçaneta e empurro a porta...
***
Fecho a porta atrás de mim.
Olho para o leito bagunçado: as amarras haviam sido rasgadas.
-Clara?É o...
No entanto, antes que terminasse de chamar pela Clara eu  a encontro trepada no teto do quarto. Aquela não era Clara. Aquilo que via não era humano. Era um hibrido entre o humano e o animal. Uma aranha no caso,que se alimentava...Se alimentava do doutor Elias,que estava branco como papel...
 A criatura parecia não me notar. Contenho um grito de pavor. Aquela era Clara, sim. Notara isso ao ver os fios de cabelo ruivos dela sacolejarem para lá e cá. Tombei de joelhos no chão. A dor me rasgava por inteiro agora... Minha cabeça fervia, parecia que ela a qualquer momento explodiria como se fosse uma melancia dentro de um micro-ondas. Meus punhos cerrados formavam nodoas no piso frio do quarto.  Minha pele começa a coçar: vou coçando-a,coçando-a,coçando-a numa tentativa falha de alivio.Coceira e dor: dor e coceira. Apenas duas palavras que me definiam naquela hora...
***
Estava no banheiro, da Clara. Havia deitado na banheira dela. O porre deve ter sido feio. Muito. Estava com uma dor de cabeça horrenda. Vou a pia: ligo a torneira,formo uma concha com as mãos e molho o rosto. O contato de minha pele água fez com ela ardesse e formigasse. Olho-me no espelho.
Apalpo meu rosto.
Aquele não podia ser o meu rosto, não, não, não podia.
Grito.
Meu rosto se deformara. Transformara-se em algo horrendo. Inumano. No lugar de minha cabeça,jazia a cabeça de uma aranha: quiliceras no lugar da boca e nariz;e vários olhos pequenos ,reluzentes como jabuticabas.

Soqueio o espelho, esmigalhando-o. Clara aproxima-se de mim. Também se transformara.Éramos aranhas humanas.