segunda-feira, 27 de abril de 2020

Digital Influenza


As redes sociais são plataformas que alavancam personalidades que nunca ouvimos falar, lançando-as ao estrelato. Alguns têm sucesso passageiro: duram quinze minutos, outros um reles story. Mas há outros que ampliam os seus quinze minutos de fama de tal modo  que conseguem atrair consigo uma horda de fãs e curiosos. Avolumando e perdurando assim  tal status.
De um instante para o outro a vida da pessoa se torna interessante. Vamos consumindo cada passo seu, cada suspiro. E da noite para o dia, de um story para outro, sem que percebamos,   almejamos a vida dela.
A pessoa transforma-se em influencer. 
Mas por que isso acontece?Por que desejamos ter a vida dela? Ser como ela? Ter algo que ela tenha?
Isso acontece, oras, porque preferimos consumir,muitas das vezes, a vida de alguém que viaja quase todo mês para algum país da Europa, come nos restaurantes mais caros ou frequenta as melhores baladas do Brasil do que a vida de um trabalhador que vive com seu cachorro numa fazenda no interior do sertão por exemplo. Não que  a vida do trabalhador que vive com o seu cachorrinho seja menos interessante. Ambos o são. Mas é tudo questão de ótica. Identifico-me com o que eu quero ou desejo. E muitas vezes (quase sempre) o que desejo não condiz com o meu estrato social. E por conta disso o meu desejo só faz aumentar. É aberto o apetite. O apetite pelo que não tenho.
O problema não reside em ser influenciado ou consumir algo oferecido pelo influencer.
O grande problema está em quem influencia e como ele o faz. Além de ter milhões de seguidores e possuir engajamento, o influencer tem uma obrigação que poucos se lembram de ter, que é a responsabilidade com os seus seguidores.
Isto é, você postar stories fazendo festa com os seus amigos para os seus milhões de seguidores em plena pandemia de Corona é de uma irresponsabilidade tremenda. Irresponsabilidade e falta de sensibilidade.
Gabriela Pugliesi na noite de sábado (25/04/2020) dera uma festa em seu apartamento. Uma festa com meia dúzia de amigas. Uma festa com amigas em pleno Corona. Repito novamente para não restar dúvidas: Gabriela Pugliesi dera uma festa em sua casa com meia dúzia de amigas em pleno Corona.
Ela uma digital influencer com quase cinco milhões de seguidores na sua conta, dera uma festa desrespeitando as normas de prevenção que foram decretadas: pessoas têm de ficar de distanciamento social e só sair de casa para fazer as coisas mais básicas e necessárias. O que significa: nada de festa com meia dúzia de amigas. É inconcebível, desumano. Não pode.
O mais engraçado de tudo é que a própria contraíra anteriormente o vírus durante a festa de casamento da irmã. A própria. E poderia ter aprendido algo com o acontecido. Poderia. Aprendera? Não, não aprendera.
Porque ela não aprendera? Porque ela vive numa bolha gigantesca. Como muitos que vejo por aí, que literalmente cagam e andam para o com o outro. Zero de empatia com o próximo. Zero. O único zero que importa para eles, é o zero dos milhões que compõem os seus seguidores.
Isso que a Pugliesi fizera, fora um ato horrendo, estúpido. Um atentado a vida. Uma falta de empatia com as pessoas que estão na linha de frente lutando contra esse vírus maldito e contra àqueles que agonizam pelo mesmo ou até mesmo pelos os que já se foram. É como se ela desse a mínima. Logo ela toda budista, toda zen.Toda digital influencer fitness que sempre prezou a saúde acima de tudo...
De digital influencer fitness,ela Gabriela Pugliesi, passara a digital influenza.
                                        

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Ensaios Sobre a Quarentena ou Quase Isso...

Acordar e estar feliz por ter acordado. Apalpar-se logo em seguida e sentir que ainda escorre vida(a seiva) pelo corpo, que ainda sente as coisas através de todos os seus sentidos(as raízes).Sim, ainda vive. Ainda sente. Sim,ainda respira. Respira tranquilamente. Nunca dera tanto valor ao ato de respirar como agora.Inundar os pulmões de ar e depois expeli-lo.Tragar e expelir, tragar e expelir, tragar e expelir. O exercício, a confirmação de uma existência.Respiro,logo vivo.
Nunca havia parado para pensar na delicadeza do existir. Essa coisa preciosa e fragilíssima como um cristal que num descuido pode espatifar-se completamente e ruindo-se em sua insignificância.Pois sejamos sinceros : a nossa existência é insignificante se comparado ao gigantismo do universo.Somos o  micro no meio do macro.E apesar dessa insignificância frágil,pulsamos. Evitamos morrer ,porque morrer é a ausência. A ausência do sentir, a ausência do amar, a ausência de apenas deixar-se estar e ser. A morte é isso  a ausência. O ponto final de uma frase que pode ser tão longa quanto curta. O último capítulo de um grande romance como Guerra e Paz ou um livro de um único capítulo apenas. Viver é isso : um sopro.A brevidade.É o vento ligeiro que desfolha as árvores no outono e a brisa   que acaricia as pétalas viçosas das flores na primavera.
***
Esse texto só foi possível de ser escrito ,porque desacelerei e o mundo ao meu redor também. A engrenagem sofrera perda de velocidade. Não que tenhamos entrado numa espécie de slow motion, não ,isso não seria possível. O capitalismo não permitiria . Para ele os corpos existem com o único objetivo : servir e consumir ,isto é,alimentar a  essa engrenagem assassina que destituí corpos de suas almas(sonhos e desejos) e se utiliza da energia de seus corpos até que estes sucumbam. A existência humana não foi feita para a escravidão. Sei que parece utópico o que direi aqui ,mas os seres humanos foram feitos para perseguir os seus sonhos ,gastar seu breve tempo e energia para conquistar o que anseiam. Pois sem os  sonhos nos tornamos coisas: frias, metálicas e descartáveis.
Ou seja, quando desaceleramos mesmo que por poucos segundos, percebemos o quão  estamos sendo  tragados por esse vórtex, pela roda. E enxergamos o quanto de energia e tempo perdemos por um consumo de manada (um consumo irrefletido que é criado, "que se faz necessário " quando na verdade não o é).
***
As pessoas quebram a quarentena por ainda não acreditarem na realidade e gravidade do que estão vivendo. Ou por acharem que são inatingíveis ou indestrutíveis, que essa "gripinha de nada" não  lhes afetarão.
Para que elas entendam que a pandemia é realmente algo grave é necessário que algo grave lhes aconteça ou com alguém próximo a ela (amigos,parentes ou vizinhos).Só com o choque é que rasga-se esse fino involucro que as pessoas se submetem. Esse involucro de demência (quase sempre)desejada, que se vestem. Só pelo choque de realidade é que as pessoas quebram o "nunca acontecerá comigo".



sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

O Último Peru

peru de natal ilustração

Num supermercado, duas senhorinhas se aproximam das ilhas de congelados. Como abutres velhos,fitam o único peru que restara do réveillon:
--A minha neta vai amar o peru recheado que farei!!--disse uma delas já encostando no peru.
--Opa.opa, eu vi primeiro. Tira a mão,vamos!
-- Pode até ter visto,mas o nome da senhora,não está escrito nele.A única coisa que está escrito é :peru e não perua...--respondeu debochada a senhorinha com camiseta preta com estampas de limões.
--Dane-se, o peru é meu e ponto. Vi primeiro,logo tenho direito!--rebateu a outra que trajava uma camiseta branca com estampa de maçãs nela.--Antes,perua do que porca selvagem...
--Tadinha...não deve bater bem da cabeça...--sussurrou a de estampa de limão.
Fuzilaram-se com olhares.Se antes queriam o peru,agora era questão de honrar o ego.O ego ferido.O que importava naquele momento era a conquista.Quem ficaria com ele?O peru. Qual das duas sairia como a grande vencedora e esbanjaria o seu ar de superioridade?
--Ok,vamos resolver isso de modo civilizado: impar  ou par?--propôs a de estampa de limões.
--O quê?
--"Ímpar" ou "Par" eu disse,tá surda?
--Par.--respondeu a de estampa de maçã.
--Ímpar --confirmou a outra.-- Um,dois ,três e.... já!!!
Antes que a senhora do ímpar pudesse apresentar os dedos. A senhorinha do par aproximou-se da ilha de congelados e agarrou o peru como se fosse uma jogadora de rugby e saiu correndo em direção ao caixa mais próximo.
***
Dona Valda estava cansada. Quem a vesse ali encostada com o rosto no cabo do esfregão pensaria que levava uma vida difícil.Muito difícil e sofrida. Mas na verdade tudo era mentira.Encenação. Enchera a cara durante o ano-novo e não se aguentava em pé. Era uma morta-viva de George Romero. Mas tudo mudara quando uma senhora com camiseta de estampa de maçã viera correndo em sua direção como um búfalo ensandecido. Bem no momento em que havia ensopado o chão com o seu esfregão...
***
Bette era o nome da senhora que vestia a camiseta branca de estampa de maçãs.Agarrada ao peru como uma jogadora de futebol americano,ela corria em direção ao caixa mais próximo. Corria numa velocidade moderada,pois era o que a idade lhe permitia. Mas mesmo assim estava distante de Angélica a senhora que vestia a camiseta de estampa de limões. Em algum canto de sua mente ,fora despertado um instinto ancestral ,cujo qual lhe dizia : comida conquistada levar já pra casa,comida conquistada levar já pra casa,conquistada levar já pra casa... Tal frase ecoava de tal maneira em sua mente que esta se tornara alheia a tudo ao seu redor.
Tão alheia que não percebera o piso que Dona Valda alagava com o esfregão.
***
"Quem aquela filha da puta pensa que é?" pensou Angélica correndo atrás de Bette a velha de camiseta de maçã."Isso que dá ser uma mulher honesta..."
Estava a poucos centímetros de pegar Bette pela camiseta quando tudo acontecera.
***
A coisa fora rápida. Bette sem perceber escorregou no piso molhado e caiu de bunda no chão.No entanto,sem largar do peru. Em seguida,veio Angélica que na sanha de capturar a sua inimiga e conquistar o tão sonhado peru, não percebera também que o piso estava molhado.Uma caindo por cima da outra. Dalva despertou do torpor alcoólico e tentou acudir a ambas,mas acabou caindo também. Foi como uma avalanche de corpos da terceira idade.
***
-- Esse peru é meu!--disse Angélica agarrando o peru.
-- Nunca!--respondeu Bette pegando da outra metade do peru, com força.
E ficaram nesse cabo de guerra até que... até que o peru rasgou-se ao meio como uma folha de papel.
E num passe de mágica, como se tivessem saído dum transe,quebrado algum feitiço. O interesse pelo alimento perde-se.Esvai-se. 
Jogam os pedaços do que  momentos atrás fora um peru para os lados , levantam-se(com certa dificuldade , como um robô que precisasse ser azeitado) e retomam as suas vidas.
Enquanto Dona Dalva balançando a cabeça diz:
--Mais sujeira,mais sujeira... O vida,o vida,o vida amarga...



quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Fragmentos do Natal


imagem para natal

Em algum lugar da antiga Jerusalém duas alcoviteiras travavam o seguinte dialogo:
--Então, era verdade mesmo? Maria estava grávida, teve um filho e se chama Jesus de Nazaré?
--Era  sim. Teve ele numa manjedoura.
--Menina, eu jurava que fosse barriga de vento... Barriga imaginária...

***
--Feliz Natal, Ruy! Feliz Natal!--disse Heitor abraçando o primo. Estava sendo dissimulado. Todos ali sabiam que não se davam. Não se bicavam. Não podiam coexistir. Isso desde pequenos. Ruy e Heitor. Inimigos desde os tempos de bolinhas de gude, desde os tempos em que apostavam corrida de carrinho de rolimã, desde o tempo que empinavam pipa no morro do urubu.
A rixa começara  na infância, mas os acompanhara até a vida adulta quando culminara na seguinte situação: Ruy se casando com a mulher de Heitor e  Heitor se casando com a mulher de Ruy. Até porque, afinal de contas, chifre trocado não dói.
--Feliz Natal-- respondera Ruy retribuindo o abraço do primo.
Todo Natal era aquela mesma falsidade na casa da avó. Os primos que se odiavam sentavam-se na mesa sempre de frente um pro outro com sorrisos debochados e olhares fuzilantes. Duas forças da natureza preparadas para se entrechocarem a qualquer momento. O momento de vazão dos rancores e da competitividade que se acumulara durante todo o ano, acontecia quase  logo após o segundo copo de capirinha :
--E essa pança, Heitor? Muita cerveja?
--Não tão grande quanto a sua que parece um jabuti repousado. --respondera Ruy se sentindo desinibido (o álcool já fazendo efeito).
--Antes jabuti do que um alce... de chifres gigantescos... Imensos... Inclusive, quando vi você saindo do seu carro,pensei que você fosse ficar entalado por conta do tamanho deles. Imensos, não?
--Não tão imensos quanto à vontade da sua mulher em se deitar comigo...
E ficavam nessas trocas de ofensas a noite toda. 
Até que um deles cedesse (o que sempre ocorria após o quarto copo de caipirinha) e adormecesse como uma criança no ombro um do outro.
***
Enfim, chegara o grande dia. A grande noite na verdade.
Depois de anos tolerando o tio do pavê, Isabel decidira se vingar. Esperou o  momento da ceia: onde todos se esbaldavam nos perus e nas saladas de salpicão. Após devorarem os pratos principais, eles partiam para sobremesa  a especialidade da mãe de Isabel: o pavê.
Levantou-se da mesa, foi à cozinha  e depois voltara para sala trazendo em mãos uma travessa do dito cujo: o pavê.
--Esse pavê,  foi feito especialmente para senhor, tio Leonidas. Bom , apetite.--diz dispondo o prato em frente ao tio.
--É pavê ou pacom...
E antes que ele pudesse responder, Isabel afoga a cara do tio no prato.
Nunca tivera um natal tão feliz como aquele.




quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

A Pessoa Mais Distraída do Mundo

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Acabo de chegar à seguinte conclusão: sou a pessoa mais  distraída do mundo. Sim, sou. Não há nenhum concorrente que se equipare ao meu nível absurdo de distração. Apenas eu somente.Eu vs eu. Digo isso porque  sou distraído duma forma que as outras pessoas não são. Pelo menos as normais.
E tenho como provar.
***
Certa vez, estava voltando do estágio do curso  que fazia na época, quando uma senhora me para segurando em meu braço:
--Oi? Se lembra de mim?
Encaro aquele  rosto curioso, enrugado e tento me lembrar: realmente tento. Tento,tento,tento e... Nada. Nada encontrado em meus arquivos cerebrais. Apenas um vazio. Nada havia sido computado pelo meu cérebro. Se um dia fora computado tais dados foram removidos, jogados na lixeira mais próxima ou lançados ao limbo escuro, úmido e mofento de minha memória.
Passado esse período de uma tentativa inútil de identificação (cujo qual, durara milésimos de segundos) repondo  da forma mais dissimulada que a minha cara de pau permitira:
--É claro que me lembro! Como a senhora vai?
A abraço como se realmente a conhecesse.Como se fosse um parente querido.
--Vou bem. --responde ela. --E como vai a sua família? Sinto a muito a sua perda. Dona Alzira era uma grande mulher. Foi-se muito cedo...
Dona Alzira? Que Alzira? Quem diabos era Alzira?
Não sabia de quem se tratava. 
Muito provavelmente a senhorinha estava com algum lapso de memória e estava me confundindo com outro alguém. Tão distraída quanto eu.Não conhecia dona Alzira e muito menos a dona que pranteava a morte dela. E para me livrar de tal saia justa, digo num tom soturno:
--Pobre, Alzira...pobre Alzira...
E saio correndo.
***

Outro momento que demonstra o quão sou uma pessoa distraída fora quando tomei um ônibus errado e quase fui parar na praia de Bertioga (praia próxima do lugar onde moro).Foi  num dia que também voltava do estágio. Lembro de que o dia tinha sido estressante e enfadonho (algo completamente normal na vida de um estagiário brasileiro) ansiava pela chegada do ônibus como quem anseia por um copo d'água no Saara. Fazia estágio geralmente aos finais de semana (em dias em que a quantidade de transporte é completamente reduzida). Ou seja, o passageiro que esperava por tais coletivos se transformava numa espécie de espantalho de rodovias e pontos de ônibus.
Finalmente  o meu ônibus chega--ou qual que achei que fosse o meu. Subo nele e vou para o fundo do ônibus e me  agarro no corrimão como um bicho preguiça. Olho para baixo, penso na vida: no passado e no futuro. Nunca no presente. Me distraio.
Depois de certo tempo, volto meu olhar para cima, olhando pela janela a minha frente e logo estranho: aquele não era o caminho que sempre tomava na volta do estágio. Ele estava diferente. Mais cheio de árvores mais verdejante. Quase uma selva. No mesmo, instante o meu coração começa acelerar. Havia tomado o ônibus errado....Estava indo para  um lugar que nunca havia pisado. Confirmo com o passageiro mais próximo o que meus olhos já haviam visto: aquele não era meu destino. Puxo a cordinha do coletivo e desço no ponto mais próximo. 
E novamente me transfiguro num espantalho de ponto de ônibus Esperando o que  realmente me levasse dessa vez (sem enganos) para minha casa.

***

Era sábado e estava afim de assistir algo na Netflix. Coloquei um filme e depois de meia hora assistindo-o a fome incorporou meu corpo. Fui a geladeira, peguei algo para comer. Saciava a fome enquanto assistia ao filme. O assisto todo com  tédio absoluto e com o sono já se pendurado em cada uma de minhas pálpebras. Os créditos começaram a subir e só fiz agradecer. O filme finalmente chegava ao fim. Hora de desligar a TV. Hora de dormir. Hora  de deitar na cama e sonhar com felpudos carneirinhos  a pularem fofamente por entre cercas.
Ledo engano.
Antes disso teria de desligar a televisão primeiro. Procuro pelo controle dentre os vãos do sofá desesperadamente: nada. Somente vãos escuros e apertados. Reviro a sala inteira (olho embaixo do sofá, estante, almofadas, debaixo do jarro de flores, atrás do aparelho de som, entre a coleção de dvds e nada...).
Parto para cozinha: olho debaixo da mesa, debaixo da pia, em cima da mesa,em cima da pia e novamente nada. Olho dentro do armário, do fogão e do micro ondas também e também nada encontro. De súbito, um estalo. Começo a rir. Rir de nervoso. Um risinho histérico. Não, não seria possível uma coisa dessas. Não o teria feito. Me encaminho a geladeira e abro o compartimento de debaixo.Nada, nenhum controle. Respiro aliviado. Ainda não estava caquético. Abro o freezer só para reafirmar que não estava caquético e... Para o meu espanto, o encontro: o controle. A prova cabal de minha senilidade.

***

Então? Sou ou não sou a pessoa mais distraída do mundo? 


quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Receita para Curar Um Coração Partido :


como curar um coração partido?

Para curar um coração partido vocês irão precisar de :

1 Coração Partido
1 Panela Tramontina
1 Caixa de Lenços Kleenex 
1 Garrafa de água de 2 litros
1 Colher de Pau

Modo de preparo(atentem-se nesta parte,pois é muito importante) :

1. Chore, mas chore até fungar. O choro aqui nesse momento, tem o  poder curativo. Destile toda a dor que está sentindo. Deixe os pedacinhos de seu coração virem um por um, sem medo. Apenas deixe. Após de um tempo chorando, eis que sentirá um alívio tremendo no peito--será como se tivessem lhe tirado um pesado colete de chumbo dos ombros.
Nesse meio tempo, vá bebendo bastante liquido,hidratar-se é fundamental --por isso,deixe a garrafa de 2l ao seu lado a todo instante).
2.Depois disso pegue o coração em pedaços e jogue numa panela Tramontina junto com água.
Vá mexendo,vá mexendo,vá mexendo.Se as lágrimas vierem nessa hora, deixa-as caírem e se necessário, dentro da panela --não haverá problema.Lágrimas darão um sabor diferenciado nesta receita.
No entanto, de maneira alguma , pare de (se) mexer.Pois  o movimento,depois do choro destilado é a parte mais importante da receita.O movimento faz a coisa andar,seguir em frente.Isto é,sempre que pensar no ex-objeto-amado,mexa o coração em caquinhos na panela.Mantendo-se em movimento.Mantendo-se em frente.
3.Enquanto a coisa toda encorpa , coloque uma música para ser a trilha sonora desse ritual: as opções vão de Adele (para momentos de fossa profunda),Roxette (para um saudosismo oitentista), Alanis  Morissette ( escute todo o Jagged Little Pill  ,pois esse disco é um verdadeiro diário de como é ser jovem e as angústia de sê-lo e consequentemente amar) ,há ainda  cantores de sertanejo universitário que são exímios  em composições de amor  e suas variações e desdobramentos Dentre a miríade que o mercado oferece ,indico Marília Mendonça (músicas para te tirarem do fundo do poço e lhe  te alçarem para superfície).
Aproveite a música e dance: chorando,dance: gritando,dance: rindo e por fim dance: esperneando. Ou penas dance.Se quiser (e será quase que irresistível não fazê-lo)pegue a colher de pau  que estava mexendo na panela  e a faça de microfone, você é um(a) rockstar , expurgue toda a sua dor. Cante para uma arena imaginária.
4. Após o seu pequeno show particular você irá perceber que a massa pegou ponto. Ou seja : os cacos magicamente se juntaram a água e se transformaram numa  mistura homogênea. Pegue-a e a despeje numa forma de  formato coração (não esqueça de untar) e leve ao forno. Deixe uns trinta minutinhos (cuidado para não queimar,por favor) e desinforme.
E voilá ! Eis um coração novinho em folha. Ou quase. Irá notar que há algumas imperfeições na massa : algumas cicatrizes, algumas disformidades,diria.Tudo bem. A receita dera certo. Elas são para lembrar-lhe , que é possível juntar os caquinhos e ter o seu coração de volta.O processo para tal dói(as primeiras paixões são as que mais  doem), causam marcas,mas depois de todo esse processo (a receita), verá que o seu coração se tornara mais forte e resistente. 

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

O Assassinato de Marat : Como Aconteceu

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A morte de Marat ,por Jacques-Louis David.

                                                                               
A história que vocês irão ler  abaixo, é baseada em fatos reais.

Marat 

Aquele escritório-banheiro onde o velho Marat estava era o lugar de sua casa onde passava mais tempo e onde se sentia mais confortável. Os vapores dos banhos constantes, lhe proporcionava alivio a  sua pele de dermatite,doença que naquela época se manifestara na superfície de sua barriga,joelhos e cotovelos. Dezenas de bolhas rosáceas que provocavam uma coceira dos infernos.
Naquele dia por algum milagre ou pelo o  seu corpo saber que em breve deixaria de cumprir a sua rotina fisiológica, a dermatite sossegara. Nenhuma coceira. Nenhum penique.Um

Charlotte Corday

Primeiro fora um amigo próximo ,depois  outro de infância. Ambos condenados à morte ,pelos textos de Marat ,o vil. Acusados e mortos sem nenhuma averiguação. Acusados e mortos por fofocas fantasiosas. Acusados e mortos. 
No entanto, hoje isso  mudaria. E como mudaria.
Subiu a calçada e bateu na porta três vezes.
Ela seria a última pessoa a quem Marat veria.
Marat

Relera a carta e sorrira: em breve, teria mais nomes. Mais traidores. a serem entregues , a serem decapitados  ou enforcados.
Charlotte Corday ao contrário dos outros informantes, era uma fonte certa e precisa já que era uma das células daquele partido execrável. Assim que recebera a carta ficara surpreso, porém contente : receberia uma lista de traidores.
Saiu da banheira e começou a vestir-se quando, de chofre, batem à porta.

Charlotte Corday

--Aguarde aqui que irei chamá-lo, senhora..?
-- Charlotte Corday, Charlotte Corday...--repetira para que não restasse dúvidas  de quem ela era a criada.
Pressionou a adaga que estava na pequena algibeira que carregava nas mãos. Adaga junto da lista dos falsos traidores.
Marat

--Mande-a  subir, Cecille--respondeu Marat à criada que batera na porta enquanto se trocava.

Charlotte Corday

Então,aquele era o desgraçado. Era mais repugnante pessoalmente.
--Prazer, em vê-lo,senhor Marat--diz estendendo a mão direita para que Marat a beijasse,mas quando percebera que este tinha pequenas verrugas  rubras no pescoço e braços a recolhe imediatamente.
-- O prazer é todo meu senhorita-- diz o cavalheiro recolhendo também a mão que estendera a ela.
E dissimulando a situação ela  diz:
.--Vamos logo ao que interessa: trouxe-lhe os nomes...--diz pegando da carta de sua algibeira.
Marat  aproxima-se ,  pega da carta e começa lê-la.
Enquanto isso, Corday aproveita e pega da adaga e avança em direção de Marat.

Marat 

Marat não conseguia entender o que estava escrito ali. Não acreditava no que estava lendo e que estava sendo vitima de uma brincadeira de  mal gosto. 
Levantou os olhos da carta, mas antes que percebesse o que acontecia , sentiu algo frio lhe perfurar o estômago.Dor lancinante.
Olhou para baixo : sangrava.Imediatamente levara a mão ao ventre,maculando de vermelho.Deixou a carta ir ao chão e finalmente olhando para cima, percebera o que acontecera.
Fora ela.
Charlotte Corday.
Morreria pelas mãos de uma mulher...
Charlotte tirou a adaga da barriga e viu o sangue vermelhíssimo  jorrar do buraco que fizera.
Marat caiu estupidamente ao chão.
Charlotte começou a esfaqueá-lo....

Charlotte Corday
Esfaqueou : 1,2,3,4,5,6,7,8,9,10....
Até que sem energia, deixara de contar.O corpo lhe doía pelo esforço do esfaqueamento.O eviscerara.Não mais incomodaria.
Limpou a adaga no vestido e saiu correndo pela porta do quarto.Esbarrou na criada que vinha trazendo chá e brioches numa bandeja de prata.
--O que houve senhora?
Sem dar mais explicações,ruma em direção a saída da casa,mas antes de fechar a porta atrás de si,ouvira a criada gritar em desespero :
--Assassinato, Assassinato,Assassinato!!

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Fuck Everything

Foda-se tudo. Fodam-se todos. 
Fodam-se aqueles que ditam o que se deve se vestir : vista isso, vista aquilo,pois está na moda,pois é  fashion. Foda-se a moda. Não uso. Só uso coisas démodé.Coisas que já passaram da estação porque sempre estive fora dela.
Foda-se tudo. Fodam-se todos.
Sobretudo, aqueles que ditam o que se deve comer ou beber : não coma isso porque engorda,não melhor, coma ,pois ele ajuda a reduzir peso,ajuda a você ficar magra feito um esqueleto,um cadáver-modelo. Beba esse shake  e comemore o seu corpo másculo de modelo de Rodin e após bebê-lo não se esqueça : prenda o ar nos pulmões e seque a barriga, seja uma estátua viva. Decore o meu feed.
Foda-se tudo. Fodam-se todos:
Que estão mortos por dentro ,no entanto, precisam morbidamente ostentar a falsa felicidade das redes : sorria por fora, chore por dentro e poste.Vamos velar a morte do nosso parente? Vamos! Ligue a porra do celular e faça uma live do velório  e depois tire aquela selfie mostrando as lágrimas (forçosamente poucas ,eu sei,porém ainda lágrimas) escorrendo de seu rosto ao lado do morto,mas não esqueça do mais importante, tá ? De ajustar o filtro para que possa (sei,sei  uma tarefa difícil) diferenciar o vivo do morto.
Registre sua vida completamente:beba,poste.Coma,poste.Cague,poste.Transe,poste.O verbo postar  acima de tudo,acima de todos. A vida passa rápido demais para que não possamos  registrá-la. Pararmos de vivê-la e registrá-la. Mil imagens valem muito mais  que vivê-las.Viver stories é melhor do que realmente  viver a vida ,já que não corre se corre o risco de se viver e se machucar.
E antes que  esqueça :  
Foda-se tudo. Fodam-se todos.

sábado, 16 de novembro de 2019

Como criar ânimo e voltar a escrever no meu blog? (Dicas)

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Ilustração por  Fernanda Young,uma de minhas escritoras-musas.

Sei que ninguém deve mais me ler aqui nesse espaço,mas foda-se. Continuarei a escrever mesmo assim.
Hoje vou falar de algo que acomete muitos escritores como eu ,que é : o desânimo em escrever,publicar.
Fiquei quase que cinco anos sem escrever porque estava cansado, meu trabalho(o meu atual),me tomava (toma) a maior parte do meu tempo e ficava tão exausto com isso que  acabava não tendo pique algum para escrever,minha mente fértil fora rapidamente minada. Isso fora logo  no começo,quando comecei nesse trabalho. Era tudo muito estressante,tudo muito novo.Fiquei nesse estado de letargia para escrita e leitura por um período de quase dois anos. Dois anos deprimentes para uma pessoa criativa como eu.
Foi então,que fui retomando o hábito da leitura aos poucos.Lendo livros fininhos,quadrinhos e romances mais longos,calhamaços depois. E com o prazer dela veio a vontade de escrever. Escrever que sempre fora o ar da minha alma,o seu alimento,a sua bebida. Até que decidi começar a retratar a minha vida num diário. Uma página por dia ou duas ou mais,dependendo da ânsia de escrever no dia. Ao me biografar nesse caderno,isso me ajudava a recobrar esse tesão pela escrita.sem compromisso comigo mesmo:  uma espécie  de exercício sem muito esforço  ou obrigação (penso que quando fazemos algo por obrigação ,essa coisa não sai tão boa quanto poderia ter saído se feita com prazer). Escrevo o que sinto vontade. Deixando a criatividade aflorar. E ainda por cima exercitando a escrita que é um músculo e que sem a comida certa e o exercício adequado, ele não cresce.
Resumindo, as dicas que eu dou são :
1- Escreva um diário, escreva nele de forma frequente. O seu livro de crônicas. O seu livro de atividade narrativa, onde a sua vida é a matéria prima.
2-Leia. Sei que é clichê,mas o faça. Leia de tudo : Quadrinhos,romances , gibis da turma da Mônica, livros de receita de Dona Benta etc. E depois que o desejo voltara e  hábito concretizado, leia coisas mais densas para encorpar a sua escrita. Leia os cânones do gênero que mais lhes apetecerem. Se gosta de terror,leia mestres do horror como Poe,Lovecraft e King.
3- Assista muitos filmes,ouça muitas músicas,vá a museus,vá a shows,teatros. Rodeie-se de arte.Se abasteça culturalmente.Monte a sua bagagem,crie o seu repertório. Viver e escrever são coisas intrínsecas. Indesgrudáveis. Ao fazer isso, você alimenta o solo de sua criatividade.
Fiz esse processo antes de voltar a escrever aqui, por durante uns dois anos e a minha vida se transformara.Voltei com estórias para contar.
4- Escreva, mesmo se naquele momento o seu texto não for bom. Apenas escreva. Com a prática você vai melhorando,moldando o seu estilo (o que gosta ou não num texto seu, a sua atitude).
Bem, essas foram algumas coisas que me ajudaram a voltar a escrever e que para mim funcionaram.E é tão voltar a escrever,me sinto tão vivo.



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domingo, 10 de novembro de 2019

Terror do Cotidiano 12 : O Sacrifício de Julia

contos de terror em milharal, raffael petter escritor


--Então, querida, você está pronta?---perguntou o pai da menina agachando-se na mesma altura que ela.
Julia brincava sentada no chão com uma boneca feita de pano de cabelos cor de ouro,sem olhos,boca e nariz.Sem expressão.
A criança estava concentrada na estória em que havia criado para seu brinquedo. Na verdade, aquela boneca em sua estória (que estava inventando em sua cabeça e que a todo instante o seu enredo era modificado) era uma heroína que enfrentava um monstro. O grande deus batata. Um deus malvado e sanguinário que requeria sacrifícios humanos de indefesos aldeões Sacrifícios que na verdade era infanticídio, isto é, eles teriam de sacrificar os próprios filhos em troca de proteção e  boa colheita oferecida pelo grande deus batata.
Naquele momento em que o seu pai a interrompera, a grande guerreira estava picotando o grande deus batata e distribuindo os seus pedaços aos aldeões que não precisariam nunca mais sacrificar os seus filhos.
-- Estou.—responde encarando o seu pai por uns segundos para depois voltar a sua narrativa.
                                                                              ***
O carro parou no centro do milharal. Ou no que sobrara dele.
É que fazia mais de dois anos que nada naquela terra crescia.Nada.
Naquela pequena cidade tudo o que plantavam morria depois de algumas semanas ou nem chegava a crescer. Isso fez com que os comerciantes e agricultores comprassem de terceiros ou fechassem as portas. Muitos preferiram a segunda opção,no entanto havia os primeiros que  entre o  cansaço (ou por falta de dinheiro para conseguir manter o seu estabelecimento) junto a uma  renitência caracteriscamente humana, decidiram  tomar uma atitude que séculos atrás seus antepassados tomaram.
Atitude que os pais de Julia também tomariam.
                                                                               ***
Deitaram Julia e mais duas garotas (ambas tinham a mesma idade dela ) em uma grande mesa de pedra no centro do antigo e sombrio milharal. A lua naquele momento havia se escondido como se estivesse envergonhada do que estava prestes a acontecer.
***
As garotas estavam vestidas de camisolas brancas e com coroas de flores ,tiritavam de frio e pavor.Julia olhou para seus pais,mas eles estavam impassíveis.
Agarrou a sua pequena boneca,a sua grande heroína com mais força. Lembrava de  ter dito que estava pronta horas antes,antes de chegar ali naquele milharal com todas as pessoas da cidade  e com aquelas meninas vestidas como elas,mas mentira. Mentir era pecado, sabia. Mas mentiu por medo, mentira para não decepcionar os pais.
Olhou para boneca sem expressão que abraçava e pôde ver finalmente um sorriso em seu rosto.
***
O padre pegou primeiro do sabugo de milho seco e depois da adaga. Esmigalhou o  sabugo sob as  meninas vociferando palavras muito antigas,(talvez latim ) e depois perfurou o peito de cada uma.
***
O sangue escorreu como um rio caudaloso e quente pela mesa fria de pedra para que o solo  pudesse bebê-lo  ainda fresco.
***
Julia olhou para os pais uma ultima vez e encarou o padre que beijou-lhe a sua testa e em seguida de suas companheiras, viu ele pegar do sabugo e da adaga.
Aquele era o deus batata. E ela era o seu sacrifício.
E antes que o padre perfurasse o seu coração, fecha os olhos desejando que a sua grande heroína pudesse lhe salvar.

Para ler o conto anterior a esse , clique aqui!
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quarta-feira, 29 de julho de 2015

Ei ,cadê o moço ,Raffael?

Estou aqui : Para Bate-papo.

E aqui : para ouvir o que ouço.

E por fim ,porém não menos importante,aqui :  para ver o que vejo. 

E a quem se pergunta quando vou voltar a postar alguma série ,eu respondo: não sei.É que o tesão pela escrita está um pouco castrada. Então... Who knows tomorrow?

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Terror do Cotidiano,11: Heil Hitler,Heil Hitler!

A noite caíra por completo há mais de uma hora. Max  corrigindo a prova de história que aplicara naquela tarde,nem vira o tempo passar de tão concentrado que estava.Olhou para o relógio em seu pulso e de repente, lembrara-se do jantar comemorativo que teria com Eliza, sua mulher. Iriam comemorar os cinco anos de casados. A prova era sobre a Segunda Guerra Mundial. A prova que  aplicara funcionara como uma espécie de análise para ver se os alunos haviam apreendido direito. Ao seu ver, a maioria dos estudantes haviam compreendido como a guerra surgira e seus efeitos quando  essa acabara. Mas dentre todas as outras provas, uma em especial lhe chamara a atenção:
Opine sobre as atrocidades ocorridas durante a Segunda Guerra Mundial:
HITLER É O PODER. É A ESPECIE MAIS EVOLUÍDA DENTRE TODOS OS OUTROS SERES HUMANOS.
JUDEUS , NEGROS E  HOMOSSEXUAIS DEVEM SER EXTERMINADOS.
Duas linhas escritas com caneta vermelha em letras maiúsculas e nada mais.Anotou em seu diário de classe o nome do aluno com o qual deveria conversar na manhã seguinte. No entanto, Max teve um estalo repentino e inconsciente. Levantou da mesa, enfiando com pressa e de qualquer jeito as provas corrigidas dentro duma pasta de couro preta e saiu da sala.
***
Fora até a sala da diretora. Ela não estava lá .Pegou do telefone: ele estava mudo.
***
Max se lembrava com clareza as palavras ditas por Hercovitch e seus amigos ,ao aluno novo,Isaac:
-O que esse judeuzinho de merda faz aqui nesta escola? Como uma criatura como ele ousa manchar o  chão que pisamos?
E antes que Isaac desferisse um soco na cara de Hercovitch,Max segura  o punho de Isaac:
-Vá para diretoria imediatamente,Hercovitch!
-Mas,Max ele é um...
-Não me interessa o que ele é ou seja,quero apenas que você vá para sala da diretora!Agora!
Hercovitch ,vermelho de raiva, marcha em direção a sala da diretora.
Isso foi naquele mesmo dia em que aplicara a prova.
***
Parou em frente ao laboratório da escola.As luzes estavam acessas. Estranhou ,pois os únicos que ainda estavam na escola (pelo menos era o que pensava) eram ele e a diretora.Olhou pela  janelinha quadrangular da porta e não acreditara no que os seus olhos viram: o menino Isaac preso a uma maca,debatendo-se tentando livrar-se das amarras que o prendiam,seus gritos eram abafados por um pano posto em sua boca.
Ao lado dele estava, Hercorvitch e seus amigos , vestidos de branco.
Max tentou ligar para polícia só que o seu celular não estava no bolso.Procurou na pasta e nada também.
Súbito, as vozes desafinadas dos garotos que carregavam em sim a inocência da infância e maldade adulta, começam a proferir:
-Heil Hitler!Heil Hitler!Heil Hitler!Heil Hitler!
E a cena que o chocara e que iria lhe perturbar por todo o resto da vida ,se sucede:
A diretora travestida de nazista ( mas parecia um cosplayer  de Adolf) aproximou-se dos garotos e disse:
-Purifique este ser impudico!
Max não conseguiu entender muito bem como a diretora aparecera ali. Alias ,não entendia a sucessão de fatos que ali assistia.
Hercorvitch empunhou um tubo de ensaio e o exibiu por um instante no ar como se ostentasse um estandarte nazista. Vascolejava o liquido do recepcionante, como se houvesse algo de precioso nele,algo mistico ,algo que contivesse o segredo entre a vida e a morte. Isaac observava tudo como uma mosca indefesa enredada na armadilha mortal de uma aranha faminta.
Gritou ,uma. Gritou ,duas. Gritou,três. Contudo,gritou mais ainda quando o jovem Andrei Hercovitch lhe derrubara no rosto, sem hesitar , acido sulfúrico.
Max gritou em agonia lancinante, num desespero quase louco em ver o aluno agonizar a se remexer no leito. Tentara arrombar a porta ,mas antes que conseguisse mãos frias e enluvadas de branco taparam a sua boca.

Para ler a estória anterior a essa clique aqui!


terça-feira, 25 de novembro de 2014

Terror do Cotidiano, 10 : Acumuladora

Acumulava, pois me sentia vazia por dentro e por fora. Então para preencher tal vazio eu acumulava, revistas e jornais. Já era conhecida na vizinhança por passar em frente às casas, indo aos montes de lixos assentados nas calçadas, em busca de revistas e jornais de hoje e ontem.
Nenhum de meus vizinhos falava comigo, pois eu os evitava. Eram hipócritas. Falavam de mim pelas costas, afastavam-se de mim quando transitava na mesma calçada ou rua como se fosse uma espécie de diabo. As crianças  destes, crentes no que os pais narravam sobre mim, fugiam terrificadas.Havia aquelas mais ousadas quais lançavam pedras em direção ao meu telhado ou miravam o vidro de minha janela.
Aquilo tudo só me aumentava o buraco que sentia em meu âmago.
Tinha de acumular, tinha de acumular, tinha de acumular, tinha de acumular, tinha de acumular, tinha de...
Quanto mais o tempo passava, mais eu acumulava. Era como se um buraco negro existisse dentro de mim. Um poço sem fundo. Enquanto, atulhava minha casa com essas coisas, fingia que não notava que o espaço dela diminuía cada vez mais. A casa estava ficando inabitável, contudo, eu continuava vazia.

Certa noite, subo ao segundo andar de minha casa para guardar umas revistas que recém coletara.Desço e vou me deitar na sala: único lugar ainda possível. Fecho os olhos e sinto o vazio percorrer todo o corpo. De repente, ouço um estalo fortíssimo vindo do alto e....

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sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Terror do Cotidiano 9 : O Porão

-Tem certeza absoluta que você trancou a porta do porão?—perguntou Elisabeth.
-Sim, tranquei querida— respondera Michael marido de Elisabeth.
Estavam no corredor da casa onde dava para o porão. A pouca luz do corredor dava a feição de seus rostos algo quase inumano...
***
-Michael?Michael?— chamou Elisabeth, cutucando o marido na cama.
-O que foi?—respondeu ainda sonolento,abrindo uma tenebrosa boca de dentes de ouro num formato de Ó.
-A policia está aí...
***
-Desculpe o incomodo a essa hora da noite, mas é que recebemos a denuncia de gritos vindo de sua casa, então tivemos de verificar...
O policial revirara a casa inteira em busca de algo. Porém, não encontrara nada. Despedira-se do casal desculpando-se.
-Desculpe mais uma vez o incomodo...
-Imagine....— respondera Elisabeth fechando logo após  a porta.
Em seguida, Elisabeth e Michael abriram a porta, acenderam as luzes e começaram a descer a escada do sótão.
Charles estava num canto do sótão encolhido como uma pomba ferida tentando dum gato.
-Quem mandou você gritar Charles?—gritara Elisabeth segurando com a tremula mão da direita o que parecia ser um chicote...

Charles se encolhera ao fundo do sombrio porão como um  rato, que recua ao se deparar com um gato.

Para ler a estória anterior a essa ,basta clicar aqui!

sábado, 15 de novembro de 2014

Terror do Cotidiano 8 : A Viscondessa


raffael petter

I
Ligou para Tereza. Disse que ela reunisse seus melhores amigos,pois tinha algo a lhes contar.
  II
Casa de Tereza. 
Estavam na sala: ele,Tereza, Humberto(amigo de Tereza) e Mariana(também amiga de Tereza).
Jogavam conversa fora,no entanto, Tereza sabia que algo estava acontecendo...
III
Já anoitecera quando Tereza pergunta:
- Cadê ele?
- Deve estar no banheiro...
- Nossa esse banheiro fica aonde Mariana? Em Neverland? –respondera Humberto. Tereza cai na risada. Mas continuava nervosa e com aquela sensação de que algo estava prestes a acontecer...
IV
Ele voltou a sala escondendo algo atrás das costas. Todos observavam atentos. Não era aniversário de nenhum dos presentes ali.
- Tenho um presente pra você ,Tereza— disse Tirando o que escondia: um sabre.
Desembainhou a arma branca cravejada de pedras preciosas e degolou Tereza.
V
Um banho de sangue. O corpo da Tereza parecia uma fonte interminável de sangue.
Mariana gritou,gritou,gritou...
Humberto, em choque tentou deter ele, mas ele fugira. 

Para ler a estória anterior a essa basta clicar aqui!

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Terror do Cotidiano 7 : Eleonor e as Raposas

Raposa e uma mulher
Eleonor sabia que se eles continuassem a desmatar a situação só iria piorar. Para que construir mais hotéis naquela cidade? Para quê?
Ao anoitecer entabulara uma conversa com o prefeito da cidade. Em um jantar a luz de velas e ao som de harmoniosos violinos ao fundo.
-Então, bióloga o que você deseja?
-Desejo que você pare de desmatar, Joe...
Joe olhou para bióloga brasileira com ternura. Não deveriam ter se separado. Eleonor era uma ótima esposa.Porém,muito extremista quando o assunto era ecologia.
-Infelizmente, não o posso fazer querida... —disse ele levando a mão na de Eleonor como se fosse uma serpente,mas Eleonor se esquiva pegando a taça de vinho tinto.—O projeto que estamos a realizar só traria benefícios para cidade.
-Então essa é a sua palavra final, não é?—perguntou ela encarando-o.
Joe anui a cabeça.

Desmataram o resto da floresta. Construíram em seu lugar vários hotéis de luxo. Os animais amedrontados e famintos fugiram para o local mais próximo onde encontrariam comida e água facilmente.
A cidade.
Raposas dominavam as ruas. Algumas chegaram atacar crianças. Os pais e filhos acossados mantinham-se ilhados em suas casas.


Casa do prefeito: noite, uivos altos e raivosos. Soubera da invasão de raposas na cidade, contudo, estivera tranqüilo até agora já que onde morava seria impossível delas invadirem.
Levantou-se. E pôs-se a observar da janela de seu quarto.


Eleonor estava nua e ao seu raposas e outros animais observavam Joe com olhos cintilantes.

Para ler a estória anterior a essa ,clique aqui!

Terror do Cotidiano 6 : O Autômato


Colocou o cartão de memória na reentrância, apertou o botão e torceu para que desse certo. Tinha que funcionar. Apertou o botão pequeno de cor verde quase imperceptível na nuca. Esperou. Um estalido metálico.
Ele olhou a máquina se mover. Era exatamente como ela. Aproximou-se e a encarou. Pode resgatar lá no fundo vítreo e obscuro de seus olhos, algo que rememorasse a Moira. Não sabia o que era.Na verdade, sabia,contudo,não conseguiria exprimir em sentença.
Tocou a pele emborrachada e fria. E a beijou ternamente.
Ela não correspondera.

Para ler  a estória anterior a essa, basta clicar aqui!

Terror do Cotidiano 5 : Doroti

Contos de Terror com bonecas


Doroti segurava Melissa com muita força. Era a sua única amiga. Olhou para as nuvens negras no céu e o furacão saindo dentre elas vindo em sua direção.
Mirou a boneca de pano pendente em sua mão direita. Melissa não se pronunciava por quê?,pensou a garota. Momento antes de fugir do sótão de sua casa pode ouvir Mel (era assim como a chamava), lhe dizer que aqueles dois furacões as levariam a terra de Oz. Contudo, a boneca de pano,de repente, calara-se em seu mundo de imobilidade.
O vento se tornava cada vez mais forte. O milharal se curvava a aquela força que parecia inexorável. A ventania silvava... Parecia tentar se comunicar com a a garotinha.
Doroti deixou as lágrimas fugirem para logo em seguida enxugá-las com os punhos. Olhou para trás. Ainda dava tempo de voltar. Voltar para casa. Retornar aos braços apertados e ternos de sua vó que adormecera no sótão.
O furacão se aproximava.
Olhou mais uma vez para casa de madeira atrás de si.
Observou Mel por uns instantes e esta lhe sorrira.

Não podia voltar. Teria que ir para Oz. Não poderia voltar.

Leia a estória anterior a essa aqui!

Terror do Cotidiano 4: A Foto

Contos de terror mais fotografia
Não lembro que matéria foi essa :(

- Por que tínhamos de vir justo pra cá Marcos? Credo, esse lugar me dá arrepios... —disse Lorena esfregando os braços. Estava frio e uma densa neblina cobria todo o Alcatraz.
-Ué,fotografar...
-Não seja cínico Marcos...—disse ela sorrindo.—Viemos aqui por causa do meu ensaio fotográfico. Nada mais.
-Certeza?—disse ele erguendo a sobrancelha grossa.
-Sim, certeza –responde atrevida. Aproximou-se de Marcos. Beijou-o e pegou da máquina que estava em suas mãos.—Tire a roupa,vamos.
-Você está louca?
-Não. Vamos, tire a roupa.
Marcos sorriu e começou a se despir. Casaco, calça e sapato. Ficara só de cueca.
Fora então que Lorena começara a fotografá-lo: click,click,click. Tirara muitas fotos, muitas.
-Acabou já?—perguntara Marcos ao notar que Lorena parara de tirar fotos subitamente. Centrada, ela observava a máquina. Isso preocupara Marcos. —O que foi?
Estende a máquina ao fotografo.
No visor, Marcos estava com a língua pra fora e vesgo, mas o que chamava atenção era a pessoa atrás dele. Um homem com saco de papel na cabeça com dois furos na altura dos olhos, segurando um machado. Olhou imediatamente para trás.
Não havia ninguém.

Se não leu o conto anterior a este , leia-o aqui!